Fórum Social pede solução para crise ideológica da esquerda

Eduardo Davis. Porto Alegre, 25 jan (EFE).- O Fórum Social Mundial começou a debater hoje em Porto Alegre os próximos passos do movimento contra a globalização e, além do combate ao capitalismo, foi traçada a meta de tentar resolver a crise de ideologias das esquerdas.

EFE |

No primeiro dos cinco dias do seminário, que celebra os dez anos do Fórum Social, vários fundadores do movimento afirmaram que a irrupção de Governos progressistas na América Latina praticamente não alterou a correlação de forças políticas e a estrutura do capitalismo.

"Há Governos que podem atender mais aos pobres, mas que nunca abandonam os que financiam as campanhas eleitorais", que sempre estão alinhados com os grandes capitais, afirmou Oded Grajew, um dos principais ideólogos do fórum.

A uruguaia Lilian Celiberti, do grupo Articulação Feminista Marcosur, ressaltou que em diversos países da América Latina "se votou na esquerda", mas que as agendas dos partidos nem sempre são as mesmas dos movimentos sociais.

Celiberti citou o que aconteceu nas eleições no Chile, onde após 20 anos o movimento governista Concertação foi derrotado pela direita.

"Se deixou de ser esquerda no Governo e, por isso, dá no mesmo votar em (Eduardo) Frei e em Sebastián Piñera", vencedor das eleições chilenas, explicou Celiberti, que disse que não há dúvidas de que as esquerdas "estão em crise ideológica".

Mais incisivo foi o economista João Pedro Stédile, membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da organização Via Campesina, que apontou que isso leva à profusão de "movimentos e ideias difusas" na esquerda latino-americana.

Stédile afirmou que os movimentos integrados no fórum devem "manter o espírito crítico" e uma total "autonomia" em relação a Governos progressistas, com os quais, no entanto, podem traçar diversas "alianças táticas".

Segundo ele, o mundo segue em poder dos grandes capitais. "Toda Europa está nas mãos da direita e assim acontece até na China, que de comunista só tem o nome", assegurou.

O dirigente agrário avaliou o papel que o fórum teve na "derrota do neoliberalismo como ideologia", mas apontou que isso não basta e que o movimento deve se manter na luta contra o capitalismo e o imperialismo.

"Com a crise econômica mundial, o capitalismo soltou o dinheiro necessário para salvar os bancos e as empresas, mas também o que é preciso para se reconstituir e se recuperar", afirmou.

Além de promover o debate ideológico na esquerda, Oded Grajew pediu ao Fórum Social Mundial que eleve ainda mais a voz em defesa do meio ambiente, assunto que hoje é mais importante "que nunca".

Nesse tema, disse que não basta reduzir as emissões de gases, mas também pôr fim "ao modo de produção capitalista, aos atuais hábitos de consumo e a toda uma cultura da destruição o esbanjamento".

Após essa primeira atividade do Fórum Social Mundial em 2010, haverá cerca de 30 eventos em dezenas de países ao longo de todo o ano.

Segundo a organização, a conferência de Porto Alegre conta com a presença de cerca de 15 mil pessoas.

Como é tradição no fórum, na noite deste primeiro dia está prevista uma marcha pelas ruas do Porto Alegre e em um teatro ao ar livre, onde se apresentarão dezenas de cantores populares.

O Fórum Social Mundial receberá amanhã o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda como líder sindical foi um dos impulsores do movimento. Ele apresentará aos ativistas uma espécie de memória de sete anos no Governo.

De Porto Alegre, Lula viajará a Davos (Suíça), para participar do Fórum Econômico Mundial, onde receberá o prêmio de "Estadista Global". EFE ed/rr

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG