Fórum Social conclui debates sem alternativas claras à crise

Eduardo Davis. Belém, 31 jan (EFE).- O Fórum Social Mundial, que desde 2001 prega que o modelo capitalista está em crise, concluiu hoje os debates de sua 9ª edição, sem conseguir formular uma resposta uniformizada à ameaça de recessão global.

EFE |

Durante cinco dias, os ativistas discutiram o chamado "Socialismo do Século XXI", que é promovido pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Além disso, debateram possíveis rupturas radicais com o sistema e reformas dentro do modelo capitalista, mas não chegaram a nenhuma conclusão clara ou única, e as ideias apresentadas se diluíram em confusos labirintos dialéticos.

Houve consenso, sim, quanto à "não serventia" do atual modelo e à necessidade de serem buscadas alternativas que o Fórum Social não conseguiu elaborar, o que, segundo seus organizadores, se deve à diversidade que caracteriza esta plataforma, integrada por mais de cinco mil movimentos sociais de aproximadamente 130 países.

Os participantes do evento também coincidiram ao condenar a "cultura do consumo" e ao defender a substituição dela pela "cultura da solidariedade". Mas em relação a esse ponto, também não foram apresentadas propostas concretas.

Essa incapacidade foi criticada hoje, sem papas na língua, pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que disse que "se o Fórum Social não der uma solução, (o Fórum Econômico Mundial de) Davos (Suíça) o fará".

A solução que provavelmente virá de Davos, segundo o intelectual português, "será mais capitalismo e menos direitos", por isso o Fórum Social "está obrigado a apresentar soluções reais", disse.

Sobre essas propostas, há delas para todos os gostos.

O deputado venezuelano Filinto Durán, por exemplo, disse que a crise tem que ser discutida no âmbito das Nações Unidas, que devem liderar o debate para a construção de "uma nova arquitetura econômica e financeira, que tenha como centro as necessidades reais do ser humano e não o consumismo".

Já para o ativista filipino Walden Bello, diretor da Focus in the Global South, uma rede integrada por movimentos sociais de quase 50 países, a ONU não conseguirá solucionar nada se não passar por uma profunda reforma que lhe faça mudar a forma como enxerga o mundo em desenvolvimento.

Bello propôs que as mudanças aconteçam em nível local, mediante "a democratização dos meios de produção e de um controle democrático da economia".

O novo modelo, na visão do filipino, deve incluir "cooperativas e empresas sociais, privadas e estatais", mas todas devem se voltar para uma economia "solidária", que não promova o "consumismo".

Apesar de tudo isso, o Fórum Social Mundial de Belém não foi tão solidário como parece. Para assistir aos milhares de debates que foram realizados, os ativistas e habitantes da cidade tiveram que pagar uma taxa de inscrição de R$ 30.

"É muito dinheiro", disse à Agência Efe Silvia Santos da Silva, que vive em Terra Firme, bairro da periferia colado à Universidade Federal do Pará (UFPA), coração do fórum.

Nessa comunidade, assim como em outras da periferia de Belém, a pobreza é grande, quase não há serviços básicos e quem tem emprego não ganha mais que R$ 450 por mês.

Alguns ativistas, contrariados pelo preço da taxa de inscrição, disseram que, pela localização da UFPA, "o fórum se aproximou dos pobres que diz representar, mas os pobres não puderam estar no fórum".

O que a população do bairro de Terra Firme, conhecido por sua insegurança, tem a agradecer é o reforço do policiamento em razão do evento.

No entanto, Nei Vera Cruz, dono de um bar que foi assaltado duas vezes nos primeiros 15 dias de janeiro, disse à Efe, em tom de lamento, que o aumento da presença da Polícia "certamente acabará na segunda-feira, quando o fórum já tiver acabado".

O Fórum Social Mundial termina amanhã, quando membros de seu comitê internacional farão um balanço da 9ª edição e anunciarão seu "calendário de mobilizações" para este ano. EFE ed/sc

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