Fortalecimento de partido ultradireitista causa temor em Israel

O fortalecimento do partido Israel Beiteinu, que nas eleições realizadas na última terça-feira tornou-se o terceiro maior partido de Israel e adquiriu poder suficiente para determinar a formação da nova coalizão governamental, provocou o temor de um radicalismo no país. Políticos e intelectuais ouvidos pela BBC Brasil chegaram a usar a palavra fascista para descrever o líder do partido, Avigdor Liberman, e afirmaram que suas posições são racistas e ameaçam o futuro da democracia israelense.

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Para Shulamit Aloni, de 80 anos, que lutou na guerra de 1948 pela criação de Israel, fundou o partido social democrata Meretz e foi ministra da Educação no governo de Itzhak Rabin, a força adquirida por Liberman é um "pesadelo".

"O resultado das eleições me deixaram com raiva, medo e vergonha, ao ver que um fascista e racista como Liberman tem as chaves para a composição do novo governo", disse Aloni à BBC Brasil.

"Em 1948, eu lutei para construir um país democrático, com igualdade de direitos para todos os cidadãos. É como um pesadelo para mim ver que um discurso fascista como o de Mussolini passa a ter tanta legitimidade no nosso mapa político".

Em um editorial recente, o jornal Haaretz diz que os principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro de Israel, Tzipi Livni e Byniamin Netaniahu, "têm a obrigação de se distanciar o quanto antes de Liberman e de suas palavras de ordem, senão terão que arcar com a responsabilidade da consolidação de uma política racista e perigosa em Israel".

Para o sociólogo Lev Grinberg, da Universidade Ben Gurion, "Liberman baseou toda a sua campanha em sentimentos de medo e ódio aos árabes, e foi favorecido pelo clima de guerra que se criou em Israel durante a recente ofensiva à Faixa de Gaza". "Como um fascista clássico, ele se aproveitou dos mêdos da população e incentivou o ódio", disse Grinberg.

Em uma entrevista ao jornal Haaretz, Avigdor Liberman disse que pretende cancelar a cidadania de israelenses que não forem "fiés ao Estado, inclusive ao hino, à bandeira e à sua identidade judaica e sionista".

O lema principal de sua campanha eleitoral foi "sem fidelidade não há cidadania" e Liberman também propôs expulsar do Parlamento os deputados árabes que forem "infiéis". A mudança da lei da cidadania será uma das condições para a participação do Israel Beiteinu na nova coalizão governamental.

A solução proposta por Liberman para o conflito entre israelenses e palestinos é a "troca de territórios e populações", sendo que as aldeias árabes de Israel, com os cidadãos árabes que representam 20% da população do país, seriam "transferidas" para o Estado palestino e os assentamentos israelenses nos territórios ocupados seriam anexados a Israel.

Mas o discurso do partido para a imprensa estrangeira soa mais brando e razoável. Dany Ayalon, número 7 na lista do Israel Beiteinu e ex-embaixador de Israel nos Estados Unidos, rejeita as acusações de "racismo e fascismo" contra o partido.

"Eles (da esquerda) começaram a lançar palavras vazias no ar quando perceberam que estavam se enfraquecendo e nós estávamos crescendo", disse Ayalon à BBC Brasil.

"Tudo o que queremos é um mínimo de solidariedade entre os cidadãos e o Estado, sem diferença entre cidadãos árabes e judeus. O que não pode ser é que cidadãos israelenses façam parte de organizações que querem exterminar Israel", concluiu Ayalon.

Reuters
Liberman

Liberman, líder do Israel Beiteinu, saiu fortalecido das eleições

Um dos líderes da colonização israelense na Cisjordânia, Pinhas Valerstein, afirmou que "graças a Liberman não vai haver um Estado Palestino".

"Nestas eleições, o povo de Israel expressou sua opinião de forma muito clara, que entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo só pode haver o Estado de Israel, e agora vão terminar as restrições aos assentamentos na Judéia e Samaria (nome bíblico para a Cisjordânia)".

O partido Israel Beiteinu ("Israel é nosso lar") obteve 15 das 120 cadeiras do Parlamento, atrás do partido governista Kadima, que conseguiu 28 assentos e do direitista Likud, com 27. Ele também superou o Partido Trabalhista, fundador do Estado de Israel, que ficou com 13 cadeiras.

Com isso, toda a atenção se voltou para Liberman, que poderá definir quem será o próximo primeiro-ministro de Israel e qual será a linha política da nova coalizão governamental.

Sem contar as 15 cadeiras de Liberman haveria um empate entre o bloco de partidos de centro-esquerda, que obteve 50 cadeiras, e o bloco da direita, extrema-direita e ultra-ortodoxos, que conquistou exatamente o mesmo número.

Nos últimos dias, tanto Tzipi Livni, líder do Kadima, como Byniamin Netaniahu, do Likud, se encontraram com Liberman e pediram sua recomendação junto ao presidente Shimon Peres, para que os nomeie como líderes da futura coalizão governamental.

A recomendação de Liberman pode ter uma influência crítica sobre a decisão do presidente, pois ele deverá nomear o candidato que tenha as maiores chances de receber o apoio de pelo menos 61 parlamentares.

O Israel Beiteinu tinha apenas 4 cadeiras no Parlamento quando foi fundado, em 1999. Nas proximas eleições, Liberman diz que vai conquistar 30 cadeiras e se tornar o líder do governo. Segundo analistas, até hoje, ele nunca errou nas avaliações de quantos votos iria receber.

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