Fortalecido, Obama dá início à segunda metade do mandato

Após derrota na eleição de novembro, líder americano dá sinais de recuperação com vitórias legislativas e aumento de popularidade

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Reuters
Abatido, Obama faz discurso após derrota nas eleições legislativas (03/11/2010)
O presidente dos EUA, Barack Obama, inicia nesta quinta-feira a segunda metade de seu mandato com uma fisionomia diferente da que estampou em 2 de novembro , quando a vitória da oposição republicana nas eleições legislativas parecia ter decretado o fracasso de seu governo e diminuído drasticamente suas chances de reeleição em 2012. Dois meses depois, o semblante abatido deu lugar a uma aparência mais tranquila, que pôde ser testemunhada enquanto o líder americano recebia na quarta-feira o presidente chinês, Hu Jintao , na Casa Branca.

Os motivos para isso se devem a uma mudança de tom logo após a derrota, quando fez um mea culpa e reconheceu a “profunda frustração” popular com o ritmo da recuperação econômica, e a uma série de vitórias legislativas antes de o novo Congresso de maioria republicana na Câmara tomar posse em 3 de janeiro.

Com a perspectiva de que teria pela frente um legislativo hostil à sua agenda, o líder americano pressionou os legisladores e conseguiu a aprovação de um corte fiscal de US$ 858 bilhões para estimular a economia, o fim da proibição de gays e lésbicas servindo abertamente nas Forças Armadas e o apoio ao novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start), que determina o corte dos arsenais nucleares dos EUA e Rússia.

AP
Dois meses depois, com aparência mais tranquila, Obama recebe Hu Jintao na Casa Branca (19/01/2011)
A série de vitórias fez o analista político conservador Charles Krathammer - que em novembro afirmou à emissora Fox News que a “agenda Obama” tinha morrido após as eleições - dizer, seis semanas depois, que o presidente havia ressurgido das cinzas e tornado sua reeleição “provável”.

O impulso final para a “volta” de Obama veio em janeiro, após um trágico ataque no Arizona que deixou seis mortos e 13 feridos, incluindo a deputada democrata Gabrielle Giffords. Em discurso aos familiares das vítimas , Obama foi tão contundente quanto nos melhores momentos da campanha presidencial de 2008, pedindo união e um debate público mais civilizado no país.

Como resultado, seu índice de aprovação cresceu até mesmo entre republicanos. Pesquisa realizada pelo instituto Gallup entre 14 e 16 de janeiro mostrou que 53% dos americanos avaliam o governo Obama positivamente, índice muito abaixo dos 78% obtidos logo após a posse, mas acima dos 47% registrados em outubro.

Na mesma pesquisa, a ex-candidata republicana à vice-presidência Sarah Palin, apontada como provável adversária de Obama na corrida presidencial de 2012, atingiu 38% de aprovação, sua pior avaliação desde 2008, quando se tornou uma figura política nacionalmente conhecida.

Sarah esteve no centro do debate sobre a possibilidade de a retórica política inflamada de movimentos conservadores como o Tea Party, ao qual pertence, terem estimulado o ataque no Arizona. Em um vídeo, ela rebateu as críticas, mas o tom agressivo da republicana contrastou com o discurso conciliador de Obama.

Em artigo publicado no site da emissora CNN, o historiador H.W. Brands afirmou que o discurso no Arizona marcou a primeira vez em que Obama “reencontrou sua voz” desde a posse, em 20 de janeiro de 2009. “O presidente lembrou americanos dos dois partidos de que é um dos oradores mais convincentes a ocupar a Casa Branca nos últimos 50 anos”, escreveu.

Em entrevista ao iG , Brands, que é professor de História na Universidade do Texas, nos EUA, afirmou que o aumento da popularidade de Obama se deve apenas em parte ao discurso no Arizona. Para ele, também é preciso considerar que a vitória nas eleições legislativas de novembro coloca mais pressão sobre os republicanos.

“Esse crescimento de popularidade é comum depois de uma tragédia nacional, quando o presidente pode personificar o luto de todo o país”, afirmou. “Mas também é um reflexo de que agora os republicanos têm de compartilhar a responsabilidade de governar. Parte da culpa que os eleitores frustrados atribuem ao governo em geral já não fica só com Obama.”

Os republicanos, porém, prometem dificultar a capacidade de Obama de aprovar medidas no Congresso. Em outubro, uma reportagem do “The New York Times” citando dezenas de assessores do presidente afirmou que, para a maioria deles, o maior erro do governo nos primeiros dois anos foi não se esforçar o bastante para “ganhar” a oposição, presumindo que alcançar uma coalizão bipartidária era realmente possível.

“Se alguém pensava que os republicanos iam simplesmente se render, estávamos terrivelmente enganados”, afirmou o senador Tom Daschel, conselheiro de Obama, ao jornal americano. “Acho que torcemos para que os republicanos desaparecessem. E obviamente eles não fizeram isso.”

Há também a avaliação de que o governo errou na forma como conduziu o debate sobre a reforma da saúde, aprovada em março em uma das principais vitórias políticas de Obama. Segundo o NYT, assessores acreditam que o longo debate sobre o projeto confundiu o público e desgastou a imagem presidencial.

James D. Savage, professor de Política da Universidade de Virgínia, nos EUA, afirma que o ano foi de resultados mistos para o governo. Para ele, a aprovação das reformas da saúde e financeira, em maio, são conquistas que definem a presidência de Obama juntamente com o pacote de estímulo à economia, lançado no início de 2009.

Por outro lado, a derrota nas eleições legislativas e a incapacidade de obter outras vitórias enquanto ainda controlava o Congresso representam graves problemas. “Os democratas não conseguiram aprovar um orçamento significativo para 2011, o que é um fracasso importante”, afirmou Savage. “Significa que, na prática, as únicas iniciativas programáticas do governo (para a economia) foram o orçamento de 2009 e o pacote de estimulo.”

Desafios e reeleição

Para os próximos anos de mandato, H.W. Brands não tem dúvidas sobre quais serão os principais desafios de Obama: “A economia, a economia e a economia”, afirmou, completando: “E torcer para que o Paquistão não entre em colapso.”

Para Savage, a partir de agora Obama deve propor menos leis e se concentrar em defender as medidas já aprovadas contra qualquer tipo de mudança (a própria reforma da saúde, por exemplo, é atualmente contestada na Justiça).

“Com exceção da reforma imigratória, as propostas mais polêmicas de Obama já se tornaram leis”, afirmou o professor. “Do ponto de vista legislativo, o presidente passará a atuar de forma defensiva. Grande parte de seu esforço será empregado em proteger o que já conquistou – e em conseguir a reeleição em 2012.”

Na reportagem do “The New York Times”, o próprio Obama previu que o ritmo da segunda metade do mandato seria “inevitavelmente diferente”. “Vamos trabalhar muito para fazer as coisas de forma correta e para ter certeza de que as novas leis sejam aplicadas como foram propostas”, disse o presidente.

Ele negou, porém, que vá se esquivar de assuntos politicamente arriscados para assegurar uma vitória em 2012. “Se você está me perguntando se nos próximos dois anos vou deixar as coisas difíceis de lado”, afirmou ao repórter do jornal, “a resposta é não”.

A campanha, porém, também não deve ficar de lado. Desde o final de 2010, várias mudanças acontecem na Casa Branca não apenas para adaptar o governo à nova realidade política do Congresso, mas, também, para liberar nomes fortes como o secretário de imprensa Robert Gibbs, que vão definir a estratégia para 2012.

Um dos desafios será conquistar os eleitores que o apoiaram em 2008, mas sentem que o desempenho do presidente ficou aquém das promessas do candidato. Segundo pesquisa do Gallup publicada este mês, apenas 3 em cada 10 americanos estão satisfeitos com o esforço de Obama para trazer “mudança”, palavra-chave da campanha.

“Os americanos quase sempre se frustram com seus presidentes quando eles começam a dizer não”, afirmou o historiador H.W. Brands. “No caso de Obama a frustração é exagerada porque as pessoas tinham expectativas muito altas quanto à sua presidência. A decepção era inevitável.”

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