FMI e ONU veem dificuldades na criação do Estado palestino

Em relatórios, órgãos dizem que a escassez de ajuda financeira e as restrições de Israel ameaçam a criação de economia viável

iG São Paulo |

A escassez de ajuda financeira internacional, as restrições comerciais impostas por Israel e a atual paralisia diplomática ameaçam os esforços palestinos para a criação de uma economia viável e de instituições sólidas, disseram a ONU e o FMI em relatórios nesta quarta-feira.

Os dois textos, divulgados dias antes de os líderes palestinos irem à ONU pleitear seu reconhecimento como Estado independente, afirmam que a Autoridade Nacional Palestina (ANP) cumpriu seu objetivo de preparar os órgãos necessários para a administração de um país. Mas eles afirmam que há pela frente ameaças econômicas e políticas que podem reverter os avanços dos últimos dois anos.

AP
Em Ramallah, palestinos fazem uma manifestação que busca o reconhecimento de um Estado (12/9)

"Estou muito preocupado com a desconexão entre o que a ANP conseguiu no terreno e a situação em que se encontra o processo político", disse Robert Serry, coordenador especial da ONU para o processo de paz do Oriente Médio.

"A realidade é que há pouca coisa que possa ser feita em condições de ocupação prolongada, questões não resolvidas sobre o status final, falta de avanços sérios a respeito de uma solução com dois Estados e continuidade da divisão entre os palestinos", acrescentou.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, pretende buscar o reconhecimento do Estado palestino na ONU, porque as negociações diretas com Israel para tal fim chegaram a um beco sem saída, depois de serem interrompidas no ano passado em meio a uma polêmica sobre a ampliação dos assentamentos judaicos na Cisjordânia.

Israel condena a busca unilateral pelo reconhecimento, e seus ministros já alertaram para possíveis retaliações, incluindo o congelamento de verbas. Os EUA também são contra a iniciativa palestina junto à ONU, e alguns funcionários ameaçam cortar a ajuda financeira dos EUA à ANP, que chega a cerca de US$ 450 milhões.

A ANP, que exerce uma autoridade limitada sobre partes da Cisjordânia, confia na ajuda internacional para cobrir um déficit que deve alcançar US$ 900 milhões neste ano.

O Fundo Monetário Internacional, no entanto, disse que a economia palestina já está sofrendo com uma forte redução nas doações. Nos primeiros oito meses do ano, essas verbas totalizaram US$ 400 milhões, ou US$ 300 milhões a menos do que o previsto.

"A recente escassez na ajuda está constituindo sérios riscos à capacidade de construção de um Estado por parte da ANP, especialmente diante da sua ainda elevada dependência em relação à ajuda", disse o FMI.

A ANP diz que governos árabes deixaram de cumprir compromissos previamente assumidos, e que, por causa disso, o pagamento dos salários dos 150 mil funcionários públicos foi afetado duas vezes nos últimos três meses.

O FMI diz que as perspectivas econômicas para os palestinos são sombrias. Na Cisjordânia, a taxa de crescimento anual no primeiro semestre foi de apenas 4 por cento, metade do que era no final de 2010.

Já na Faixa de Gaza, que é administrada pelo grupo islâmico Hamas, o crescimento disparou de 15 por cento em 2010 para 28 por cento no primeiro semestre deste ano. Isso, segundo o FMI, reflete a redução das restrições de Israel à região desde meados de 2010, mas o PIB da região ainda continua inferior ao que era em 2005.

O desemprego na Faixa de Gaza, segundo o FMI, caiu de 37 para 28 por cento. Na Cisjordânia, ele se manteve em 16 por cento.

Assembleia Geral

Apesar das pressões por parte de Israel, porta-vozes do presidente Abbas anunciaram que o plano de pedir o reconhecimento da ONU continua de pé. Segundo o porta-voz Nabil Abu Rodeina, Abbas deverá discursar na Assembleia Geral da ONU no dia 23.

O pedido palestino deverá ser votado pela Assembleia Geral no inicio de outubro e, de acordo com avaliações de analistas locais, pelo menos 140 dos 193 países membros das Nações Unidas deverão apoiar o reconhecimento do Estado palestino. Os EUA já prometeram a Israel que utilizarão seu poder de veto no Conselho de Segurança contra a iniciativa, o que deve fazer com que o Estado da Palestina não possa ser aceito como membro integral da ONU.

Abbas, no entanto, disse que vai em frente com os planos porque uma votação da maioria dos países da Assembleia Geral em favor da independência "conferirá aos palestinos uma posição diplomática mais forte para negociar com Israel".

Fronteiras de 1967

Para Mohamad Shtayeh, uma das figuras centrais da liderança da Organização para Libertação da Palestina e do partido Fatah, a decisão do presidente Abbas de se dirigir à ONU "decorre do unilateralismo israelense".

Shtayeh deverá acompanhar Abbas a Nova York. Segundo ele, “os palestinos levarão sua luta de volta ao lugar onde tudo começou - a Assembleia Geral da ONU", em referência à decisão da ONU de 1947 sobre a partilha, segundo a qual a Palestina, que então se encontrava sob controle britânico, seria dividida entre um Estado árabe e um Estado judaico.

A OLP, reconhecida internacionalmente como representante do povo palestino, defende o estabelecimento de um Estado palestino nos territórios ocupados por Israel durante a guerra de 1967 - Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental.

* Com Reuters, AFP, AP e BBC Brasil

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