Fim-de-semana

Para me despedir: no título, fim de semana com hífen. Como querem, ou queriam, nossos avozinhos, os portugueses, que, afinal, acabaram enfiando o galho dentro e concordando com essa besteirada da uniformização ortográfica.

BBC Brasil |

Neste espaço não caberiam todos aqueles que irão ganhar uma nota preta com a jogada. Já li e reli, estes anos todos, o que pude sobre a embromação. Poucos tiveram peito para expor as verdadeiras razões por trás da uniformização (e bota uniforme e medalha nisso).

Alguns se atreveram. Desapareceram todos misteriosamente. Tá bom, vá lá que seja. Estou exagerando um pouco. Mas que calaram a boca, calaram. Ou, mais provável (afinal de contas é a gente, minha gente), deram um cala-bôca (e é com hífen e acento só para sacanear alguém ou todo mundo) para o pessoal.

O resto, como de hábito, ou não ligou, ou de inconseqüência e patetice acabou topando. E citam o Saramago. Nem sempre lembrando que ele disse, entre outras coisas, que continuará escrevendo como sempre escreveu, que o resto é problema dos revisores. Está nas entrelinhas o que ele, de verdade, acha, pois não?
Em São Tomé e Príncipe, o clima é de festa. Enfim: um vôo sem circunflexo. Exatamente o que eles precisavam.

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Recuso-me a comentar o final de uma dessas copas disputadérrimas aqui pelas ilhas e estas Oropas. Manchester United versus Chelsea. Em Moscou, coitada, como se já não bastasse tudo que essa pobre dessa cidade passou pela História a frente e afora. 42 mil ingleses zanzando pela cidade, pagando uma fortuna por tudo, desafiando uma polícia que, fosse nos bons tempos do comunismo, cairia de cacete em todos eles pelo menor dos motivos.

Os 5 ou 6 litros de cerveja que os fans (sim, são com ene e sem til, feito o futebol que assistem) consomem, e que sai a perto de 32 dólares o litro, mais a vodka (há quanto tempo, "dona" letra Ka, ou Kapa, em terras lusas!), que lá é baratinho, foram responsáveis pelas cenas dantescas que, na certa, se passaram em ruas e praças da capital russa.

O Manchester United é conhecido como The Reds, pelos pobres dos ingleses. O Chelsea como The Blues. Imensa, vasta pobreza. Desnecessário acrescentar que a terminologia foi violentada como uma rapariga inocente nas mãos e sob o etc dos sórdidos e repulsivos indivíduos que brutalizam diariamente a mídia britânica.De Praça Vermelha a Tristezas (blues, confere?) e por aí adiante. Assim como o Saramago, não tomei conhecimento do jogo, da peleja, da contenda, que deve ter sido tudo isso ao mesmo tempo. Deixei para meus revisores.

E decisão por pênaltis é os tinflas.

42 mil torcedores ingleses de futebol. Foi para gente assim que Napoleão perdeu a guerra.

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Outro dia me aborreceu, e eu acabei aborrecendo o leitor distraído, para não falar de meus revisores e os do Saramago, essa história de bicho em extinção.

Bicho é para ser extinto. Trata-se de uma lei imutável da vida. Algo assim feito a unificação da língua portuguesa. Foram-se os dinossauros e todos seus jurássicos companheiros. Em boa hora. Que seria dos museus de história natural se não fosse o desaparecimento daqueles biguanos todos?
Vocês têm uma ideia (atenção, primeiro uso legítimo e oficial da palavrinha sem o acentinho querido, essa alma minha, tão cedo desta vida, descontente, et cetera e tal), repito, vocês têm uma ideia (acumulei: segundão) onde estaríamos nós se cronossauros e brontossauros continuassem zanzando pelos campos e cidades do globo terrestre feitos torcedores do Manchester United ou do Chelsea?
Nem mesmo o mais arrojado voo de imaginação poderia conceber.

Nota minha para meus revisores e do Saramago: atenção, estou sendo o primeiro também a fazer uso da aérea modalidade, sem recorrer a mais ninguém, e chutando para corner, como um zagueiro do Manchester United, a palavra vôo sem o circunflexo, que tão bem sua cabecinha redonda cobriu e protegeu, estes anos todos, como um boné azulmarinho dos New York Yankees.

Reparem ainda no hífen afanado da cor do quepe. Sou um homem de nossos tempos: não valho nada.

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Chego agora finalmente, meio exausto, pondo os bofes para fora, onde já deveria estar há algumas linhas. As especialidades comestíveis também ameaçadas de extinção e não só de desastre igual a unificação ortográfica. Aí é chato.

Lá encontrei, na lista preparada por técnicos em coisas em extinção, gente do time dessa turma da reforma lusobrasileira (epa), delícias feito o aspargo ou espargo, como devem preferir o Saramago e seus revisores.

Vão acabar. Certos comestíveis. Não dão mais que 300 anos de vida para o espargo ou aspargo. Chato, muito chato. A alcaparra também está pela bola sete. Mais uns 200 anos e é beleléu garantido. Queijo de leite cru de vaca. Taí, esse eu tô (to?) pouco ligando. Pra mim é final entre Manchester United e Chelsea.

As peras. Mau, muito mau. Mas só as peras de Gloucestershire. No caso, então, tudo bem. Inglês não manja nada nem de pêra nem de banana.

Se é para extinguir, mandem bala, brasa ou o que for, no ruibarbo, na jaca e no quiabo. Aí sim. Esses, pra mim, numa mesa, são o equivalente a um trema e um hífen no português do século XXI.

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