Filmes que retratam o calor aquecem as emoções nos cinemas

Mateo Sancho Cardiel Redação Central, 11 ago (EFE).- As altas temperaturas sempre foram para o cinema um detonante das emoções, como demonstram os asfixiantes dramas de Tennessee Williams, a ventilada comédia O pecado mora ao lado e a sensualidade de A lei do desejo, de Pedro Almodóvar.

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Enquanto as salas de cinema congelam os espectadores com o ar condicionado, a sétima arte utilizou o calor em muitas ocasiões como um personagem mais.

Sem ele, Marilyn Monroe nunca teria se refrescado em cima de um respiradouro do metrô para provocar seu lendário levantamento de saias em "O pecado mora ao lado" (1955), de Billy Wilder nem os vizinhos de James Stewart em "Janela Indiscreta" (1954) teriam arejado suas intimidades no filme de Hitchcock.

"Quando há este calor, sabe o que faço? Guardo minha roupa dentro da geladeira", dizia Marilyn, com sexy ingenuidade, no filme de Billy Wilder.

Mas, sobretudo, o calor foi explorado como um extremo que desenvolve a animalidade, que abre os poros e deixa escapar os sentimentos mais primitivos.

Em 1981, após colaborar no roteiro da saga de "Star Wars" e Indiana Jones, Lawrence Kasdan estreou como diretor com "Corpos Ardentes", uma trama clássica inspirada em "Pacto de sangue" (1944), mas com um erotismo doentio entre Kathleen Turner e William Hurt que se potencializava com a onda de calor que o filme retratava.

"Pode ficar aqui comigo se quiser, mas tem que me prometer que não vai falar sobre o calor", dizia ele para quebrar o gelo em pleno verão. "Sou uma mulher casada", respondia ela de forma categórica. A conversa terminava com um sorvete derramado em sua blusa.

Os protagonistas, em outra seqüência que deve ser lembrada, jogavam cubos de gelo em uma banheira que fervia por um desejo sexual que mais tarde se tornaria criminoso.

Almodóvar também utilizou um verão, mas desta vez madrileno, para criar uma cena que resume toda sua primeira etapa. "Não suporto esta noite. Molhe-me, molhe-me", gritava Carmen Maura ao lixeiro que limpava a rua com sua mangueira em "A lei do desejo" (1987).

O ambiente sufocante acompanhou toda a obra criativa de Tennessee Williams que, reaquecida com a moralidade do sul dos Estados Unidos de onde provinha o dramaturgo, transcorria pelos trilhos da sexualidade reprimida.

No entanto, os espartilhos se derretiam pelo calor de uma estufa em "De repente, no último verão" (1959), nas barras de uma cama em "Gata em teto de zinco quente" (1958) e com os suores tropicais de "A noite do Iguana" (1964).

Este último filme transformou em destino turístico de moda a praia mexicana de Puerto Vallarta, a mesma na qual Ava Gardner se vingava do tormento de Richard Burton com dois jovens da zona que dançavam ao som de maracas.

O calor, que também acelera os processos de putrefação, aumentou a sensação de sordidez e corrupção de "No calor da noite" (1967), em que nem a escuridão podia ocultar o caráter impositivo, racista e violento do policial interpretado por Rod Steiger.

O filme, ambientado no verão no Mississipi, foi rodado no outono em Illinois e os atores, em algumas cenas, tiveram que mascar gelo para que o bafo de suas bocas não interrompesse a sensação de calor.

Essa mesma sensação foi vivenciada em "A marca da maldade" (1958) que, passado no México, contava com Orson Welles em um significativo papel em que se arrastava e suava como uma lesma que desacelerava a resolução da trama.

O calor asfixiante também potencializou a angústia em thrillers como "Cabo de medo" (1962), na qual Robert Mitchum se recreava em sua selvageria sem camiseta, embora tenha servido de contraste para a frieza assassina de Tom Ripley, interpretado por Alain Delon em "O sol por testemunha" (1960).

Mas o calor também produz sede de vingança, como mostrou Sam Peckinpah em "Traga-me a cabeça de Alfredo Garcia", na qual o caminho para a revanche estava regado pelo suor de um pai que persegue quem desonrou a sua filha.

A aridez do oeste criou um gênero como o western, que estirava a tensão por volta do meio-dia, quando o sol não produz sombra, para o clímax de "Matar ou morrer" (1952), ou encontrava as paixões de Joseph Cotten, Gregory Peck e Jennifer Jones no apoteótico e quente desenlace de "Duelo ao sol" (1946).

Finalmente, mais ao sul, chegando ao trópico, o calor úmido e a transpiração tiveram um papel definitivo em "O salário do medo" (1953), de Henri Georges Clouzot, e "A morte no jardim" (1956), de Luis Buñuel. EFE msc/ab/rr

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