Em vida, Harvey Milk foi um pioneiro dos direitos homossexuais nos Estados Unidos; 30 anos depois de sua morte ele se tornou um mártir do movimento gay.

A vida e a morte deste personagem, recordado como o primeiro homem abertamente homossexual eleito para um cargo oficial na Califórnia, serão lembradas a partir desta semana com a estréia do filme mais recente de Gust Van Sant, "Milk", protagonizado por Sean Penn.

O longa-metragem sobre Milk, cujas pré-estréias seletivos nos Estados Unidos já desencadearam uma onda de rumores sobre uma indicação de Penn ao Oscar, estréia nesta quarta-feira, um dia antes do 30º aniversário de seu assassinato.

As homenagens acontecem em um momento delicado para a comunidade homossexual da Califórnia, particularmente de São Francisco, cidade de Milk, abalada pela aprovação popular a uma proposta, submetida a referendo em 4 de novembro, para incluir uma emenda na Constituição estadual com o objetivo de proibir os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, o que havia sido autorizado pela Suprema Corte local em maio.

Milk contribuiu para impedir a aprovação de uma proposta que pretendia impedir o trabalho de professores gays. Também foi membro do Conselho de Supervisores da cidade de São Francisco, que assessora a prefeitura, até sua morte em 27 de novembro de 1978.

O assassino, Dan White, que havia renunciado como supervisor mas depois tentou recupera o cargo sem êxito, matou o prefeito George Moscone e Milk na prefeitura da cidade e se entregou à polícia poucas horas depois.

No filme, White é interpretado por Josh Brolin, visto recentemente nos cinemas como o presidente George W. Bush em "W", filme de Oliver Stone.

Milk e White, um veterano da Guerra do Vietnã que trabalhou como policial e bombeiro antes de se candidatar ao cargo de funcionário público, tiveram muitas discussões quando eram supervisores da cidade.

"Harvey era um pára-raios para o movimento dos direitos homossexuais, que estimulou as lésbicas e os gays a trabalhar com os atuais processos políticos e exigindo respeito e reconhecimento", afirma a senadora do Congresso de Califórnia Carole Migden, uma lésbica que também integrou o Conselho de Supervisores de São Francisco.

"A eleição dele foi um passo enorme para frente. Mostrou que os homossexuais mereciam um lugar na política", acrescentou.

Milk, que tinha 48 anos quando foi assassinado, não era apenas aberto a respeito da homossexualidade. Também fazia piadas sobre ele mesmo e se apresentava como a "rainha número um".

Quando assumiu temporariamente o posto de Moscone como prefeito, soltou uma de suas piadas em uma cerimônia de inauguração quando cortava a fita: "Provavelmente sou o único prefeito que corta a fita e depois a coloca no cabelo".

O ex-tenente da Marinha assumiu a função no Conselho de Supervisores em 1977, numa época em que os Estados Unidos eram sacudidos por reações anti-gay.

Na Flórida, a cantora Anita Bryant liderou com sucesso uma campanha para derrubar uma lei que proibia a discriminação contra os homossexuais.

Milk liderou a oposição a uma proposta na Califórnia que pretendia proibir a presença de professores homossexuais, ou qualquer professor que apoiasse os direitos da comunidade gay, nas escolas públicas.

Selecionado como uma das 100 pessoas mais influentes do século XX pela revista Times, o espírito de Milk permanece vivo em Castro, o bairro que é o epicentro histórico da comunidade gay em São Francisco.

A estréia de "Milk" na cidade acontecerá no cinema de Castro, a poucos metros da praça que leva seu nome. A distribuição está por conta do mesmo estúdio que produziu "O Segredo de Brokeback Mountain" há dois anos.

No entanto, 30 anos depois da morte de Milk, a Califórnia, o estado supostamente mais progressista dos Estados Unidos, está em crise porque mais de 52% do eleitorado não quer conceder o direito de matrimônio aos casais do mesmo sexo.

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