Filipinos cuidam melhor do cadáver de Ferdinand Marcos do que de seu legado

Paula Regueira Leal Batac (Filipinas), 7 jul (EFE).- A terra natal do ex-presidente filipino Ferdinand Marcos dá mais atenção à preservação de seu cadáver embalsamado do que à salvação de seu legado histórico, conforme se vê no abandono de seu museu e nos cuidados recebidos por seu mausoléu.

EFE |

Na província de Ilocos Norte, na ilha de Luzon, são minoria os que consideram Marcos um ditador, ao tempo que uma maioria arrasadora o vê como "o melhor presidente da história das Filipinas".

No coração da população de Batac, que o ex-líder considerava sua cidade natal apesar de ter nascido um pouco mais longe, em Serrat, em 11 de setembro de 1917, está junto à ponte de Quiaoit a antiga residência que ele habitou em sua juventude, uma mansão cujo interior divide-se em um museu e um mausoléu.

O primeiro compreende dois quartos com umidade e fotografias maltratadas pelo tempo, com várias frases célebres do antigo presidente e as distinções conseguidas durante sua carreira.

O segundo, cujo único ponto iluminado corresponde ao cadáver de Ferdinand Marcos, está bem cuidado, as paredes e a abóbada negra estão limpas e centenas de flores brancas de plástico decoram a sala na qual soa constantemente uma música de fundo.

O corpo, considerado por muitos uma réplica de cera, está vestido com um barong (traje a rigor filipino) branco com pequenos bordados e a tradicional calça preta, e permanece protegido por uma urna de vidro.

"Foi um grande homem, o mais digno presidente das Filipinas", afirma Jun Farrinas, um dos funcionários do museu.

"Construiu estradas, pontes, escolas e trouxe dinheiro para nossa província, e seus filhos continuam trabalhando agora por nós", acrescenta Farrinas.

A primogênita, María Imelda ("Imee"), foi congressista e seu irmão, Ferdinand ("Bong Bong"), foi governador de Ilocos Norte e atualmente ocupa uma cadeira na Câmara Baixa do Parlamento.

A menor, Irene, se dedica aos negócios e a seu marido, Gregorio Araneta, membro de outra poderosa família filipina.

Imelda, a viúva, usa seus dias na luta para manter intacto o bom nome de seu marido e os atos benéficos, enquanto uma legião de advogados a protege dos mais de 400 processos que o Estado formalizou contra Marcos depois que uma insurreição popular pacífica o expulsou do poder e o exilou em 1986.

Ela se envolveu com a política desde que lhe permitiram retornar ao país, em 1991, mas com objetivo maior de conservar seu patrimônio e sua liberdade.

"Em 1986, quando o tiraram do Governo, a Administração tomou esta casa e fez dela um museu", diz uma das vigilantes, Aida de la Cruz, em referência a Malacañang do Norte, a casa construída em Batac em 1976 por ordem de Marcos para passar temporadas ali com sua família.

"Não tinham o direito de lhe tirar sua propriedade, eles fizeram muito pelos pobres, nos trouxeram a eletricidade", argumenta De la Cruz sobre essa vila, com uma bela vista para o lago Paoay e que conta com sete amplos dormitórios, nove banheiros, cinco grandes salões e duas magníficas coberturas.

Apesar de desprovida de qualquer tipo de decoração introduzida por Marcos durante os 10 anos em que a ocupou, a casa ainda impressiona por seus quartos pintados cada um de uma cor, cama, cortinas e tapete, suas portas talhadas e a elevação de seus tetos.

"A vida era mais fácil e segura quando Marcos governava", diz Rentao Samson, um hoteleiro da região.

"Talvez roubasse dinheiro do Estado, todos os presidentes o fazem, mas acho que sua fortuna ele construiu graças a seus negócios. Ele trouxe o turismo para cá, criou Fort Ilocandia, Malacañang do Norte, campos de golfe", acrescenta Samson. EFE prl/rb/gs

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