Filhos de refugiados da guerra voltam ao Vietnã para fazer negócios

Cerca de três milhões de vietnamitas vivem no exterior, metade deles nos Estados Unidos

EFE |

Eric San Juan, Ho Chi Minh  - Centenas de filhos de refugiados vietnamitas que fugiram do regime comunista em 1975 voltam todos os anos ao país para passar férias ou fazer negócios e são peças importantes do crescimento do Vietnã. Mais de três milhões de vietnamitas vivem no exterior, a metade deles nos Estados Unidos, descendentes dos chamados boat people (balseiros) que fugiram em massa após a tomada de Saigon pelo Exército comunista, com medo de represálias.

Cerca de 500 mil voltam todos os anos ao Vietnã, a maioria simplesmente para passar férias, embora alguns aproveitem para fazer negócios, em um país onde encontram oportunidades e acabam instalando-se nele. Nguyen Tue, de 38 anos, voltou ao Vietnã há dez anos pela primeira vez desde que deixou o país, em 1985, quando se mudou para o estado americano do Texas, onde ele e sua mãe se juntaram ao resto de sua família.

"Meus pais não entendiam que eu quisesse voltar ao Vietnã, mesmo que fosse de férias. Eles me levaram aos EUA para que eu tivesse uma vida melhor e não entendiam minha volta", explica. Mas os receios de sua família não impediram que Tue se apaixonasse pelo país onde passou sua infância e acabasse se mudando para Ho Chi Minh (antiga Saigon), em 2003. Segundo a Câmara de Comércio do Vietnã, os conhecidos como viet kieu (vietnamitas do exterior) investiram US$ 7,4 milhões no país em 2008, apesar de as leis do país não deixarem claro se eles têm os mesmos direitos que os locais.

A necessidade de investimento estrangeiro e a abertura econômica provocaram um giro na percepção dos viet kieu, considerados "traidores covardes" durante anos por um regime comunista que agora precisa deles para o desenvolvimento do país. "Meu pai trabalhava como engenheiro para o Exército do sul, em Da Nang (no centro do país), mas quando acabou a guerra foi embora com dois dos meus irmãos mais velhos. Minha mãe e eu não conseguimos sair do país até 1985", lembra Tue, hoje diretor de uma agência de publicidade em Ho Chi Minh.

A fuga aos 12 anos de idade para um país tão diferente quantos os EUA e quase sem saber o inglês não representou um trauma para Tue, que ainda fala o idioma com um pouco de sotaque e se considera "de cultura americana, mas de coração vietnamita". Muitos dos que, como ele, cresceram nos EUA e voltaram ao Vietnã anos depois com os bolsos cheios não são bem-vistos pelos locais, devido a sua suposta arrogância e ostentação.

"Vêm aqui como se fossem deuses e não nos respeitam, ostentando seu luxo, quando na realidade voltaram porque não conseguiram encontrar um trabalho melhor", diz Hoan, que trabalha como secretária em Ho Chi Minh. Tue diz entender este sentimento, porque "muitos voltam olhando as pessoas por cima, quando na realidade deveriam sentir respeito por sua cultura".

Elegantemente vestido com roupas de marca, Tue poderia passar por estrangeiro em seu país natal, até que se encoraja a falar em vietnamita, um idioma que conhece, mas não domina. Tue conta que, às vezes, não consegue evitar pensar como sua vida teria sido diferente se não tivesse saído do Vietnã há 25 anos: "seria taxista ou ganharia a vida consertando motos como meus amigos da infância em Da Nang, ganhando o suficiente para comer".

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