Filho de Biggs liga soltura do pai à de líbio acusado por atentado

Michael Biggs, o filho brasileiro do lendário assaltante britânico Ronald Biggs, afirma que a libertação de seu pai por razões humanitárias ocorreu em antecipação à libertação, pelo mesmo motivo, do líbio Abdelbaset Ali Al-Megrahi. Al-Megrahi foi condenado pelo atentado a um avião da Pan Am que matou 270 pessoas sobre Lockerbie, na Escócia, em 1988 - e libertado na semana passada.

BBC Brasil |

A libertação de Biggs, que está atualmente em uma casa de saúde no norte de Londres, ocorreu poucas semanas após o governo britânico ter recusado um parecer sugerindo que ele estaria apto a uma liberdade condicional.

Em uma entrevista publicada nesta terça-feira pelo diário britânico The Guardian, Michael diz acreditar "que quando Jack Straw (o ministro da Justiça britânico) tomou a decisão no mês passado de não permitir a liberdade condicional ao meu pai, a decisão de libertá-lo por razões humanitárias já havia sido tomada. Ele tinha que parecer duro no combate ao crime".

"Eles sabiam que iam libertar o Al-Megrahi, mas não podiam soltá-lo sem soltar meu pai antes. Você pode imaginar a gritaria se não fizessem isso?", disse.

Ronald Biggs, de 80 anos, foi libertado no dia 7 após o governo britânico considerar que seu estado de saúde é muito frágil. Ele teve uma série de derrames, não consegue falar, não anda sem ajuda, é alimentado por um tubo no estômago e foi acometido de uma pneumonia.

Fuga
Biggs participou em 1963, ao lado de outros 14 homens, do roubo de 2,6 milhões de libras transportados por um trem que viajava de Glasgow a Londres, na época o maior roubo da história.

Após ser preso e ter cumprido 15 meses de sua sentença de 30 anos, Biggs fugiu e passou por diversos países até se radicar no Rio de Janeiro, onde nasceu Michael, de um caso com uma dançarina brasileira.

Ele retornou à Grã-Bretanha em 2001 e se entregou à polícia para cumprir o restante de sua sentença.

Michael diz que o pai decidiu retornar por ter ficado deprimido no Brasil. "Ele sentia falta da Inglaterra", justifica.

"Eu não queria que ele voltasse, de maneira nenhuma. Eu tentei de tudo para persuadi-lo a não voltar. Ele tinha tido dois derrames, não conseguia falar, mal conseguia se mover. Sua saúde estava se deteriorando rapidamente", diz.

Segundo Michael, o pai lhe deixava bilhetes diários pedindo para levá-lo de volta à Grã-Bretanha. "Eu estava vivendo com um velho deprimido e, não importava o que eu dissesse, ele estava determinado a voltar para a Inglaterra", disse.

Ele conta que, avaliando reportagens da mídia britânica sobre casos criminais, eles verificaram que "estupradores e molestadores de crianças estavam deixando a prisão em poucos anos" e acreditaram que Biggs não ficaria muito tempo atrás das grades.

Apesar disso, ele foi enviado à prisão de segurança máxima de Belmarsh, em Londres. "Ele não poderia fazer mal a ninguém, mesmo se quisesse. Não esperávamos que fizessem com ele o que fizeram", diz Michael.

Balão Mágico
Na entrevista ao Guardian, Michael comenta também seu período como integrante da banda infantil A Turma do Balão Mágico e apresentador do programa de TV do mesmo nome, no qual era conhecido como Mike.

Ele conta ter sido "descoberto" pelo presidente da gravadora CBS no Brasil ao aparecer na TV em 1981 pedindo pela libertação de seu pai, que havia sido sequestrado no Rio por um grupo de mercenários e levado a Barbados, onde enfrentava um processo de extradição à Grã-Bretanha.

"Eu tinha apenas seis anos e estava falando na TV, dizendo que eu queria meu pai de volta. Dizendo que a rainha queria ele, mas que eu queria ele mais", comenta.

O jornal comenta que graças aos 12 milhões de discos vendidos pela banda, Michael e o pai ganharam uma segurança financeira. Antes disso, Ronald, que era proibido de trabalhar no Brasil, sobrevivia vendendo entrevistas a meios internacionais.

Michael, que vive hoje no norte de Londres, termina a entrevista dizendo ter orgulho do pai. "Eu não tenho orgulho do que ele fez, não tenho orgulho do fato de que ele era um criminoso. Mas tenho orgulho do homem que ele é", afirma.

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