Fidel, o ícone de uma revolução que já dura mais de 50 anos

Redação Central, 25 jul (EFE).- Fidel Castro, o homem que conduziu o destino de Cuba durante meio século com o desejo de conquistar um lugar na História, teve de deixar o poder oficialmente em fevereiro último, aos 81 anos, e em meio a uma grave doença.

EFE |

Neste sábado, o líder completa dois anos afastado da vida pública. Em 2006, Fidel encerrava os atos pelo "Dia da Rebeldia Nacional" com dois discursos nas províncias do leste cubano - Granma e Holguín -, os últimos antes de sofrer um grave problema intestinal.

Em sua historiografia revolucionária aparece a frase que tornou Fidel famoso em todo mundo: "Condenem-me, não me importa, a História me absolverá", pronunciada em 1953 ao tribunal que o declarou culpado do ataque ao Quartel Moncada, sua primeira ação armada contra a ditadura de Fulgencio Batista.

"Se tivesse que começar de novo, seguiria o mesmo caminho revolucionário. De modo algum posso me dar por totalmente satisfeito com o alcançado; sempre terei a sensação de que poderia ter feito melhor", confessou muitos anos depois ao comandante sandinista nicaragüense Tomás Borge.

Agora, já aposentado por razões de saúde, segundo ele mesmo disse em mensagem publicada na imprensa oficial, os cubanos têm a palavra sobre seu legado e seu papel na História.

Filho de um imigrante galego que enriqueceu com as multinacionais americanas nos anos 30, Fidel Alejandro Castro Ruz passou dos campos de Birán - povoado de uma área pobre do leste de Cuba -, onde nasceu em 13 de agosto de 1926, à convivência com os filhos da burguesia nos melhores colégios de Havana.

Segundo seus biógrafos, a rígida educação recebida de seu pai o influenciou tanto quanto a religiosidade de sua mãe e seus anos de estudo com os jesuítas em Havana.

Os jesuítas marcaram decisivamente sua personalidade antes de chegar à universidade, onde se tornou líder estudantil enquanto encerrava sua carreira no Direito e começava sua militância política.

O líder cubano criou no país um "comunismo caribenho" inspirado em Marx e Lenin, com o legado de José Martí e uma grande dose de contribuições próprias, que resultou em um sistema único no mundo.

O líder no poder mais antigo do Ocidente, superado apenas pela rainha Elizabeth II, ocupou uma longa lista de cargos: entre outros, presidente do Governo, dos Conselhos de Estado e de Ministros, comandante-em-chefe das Forças Armadas e primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba.

Apesar de sempre ter negado a existência do culto à personalidade em Cuba, os títulos acumulados por ele e a constante adulação por parte da imprensa oficial e pelos altos funcionários em relação à sua figura mostram o contrário.

Na ilha não há estátuas do líder, nem de nenhum dos heróis da revolução vivos, mas os retratos de Fidel, e em menor grau de seu irmão Raúl, estão pendurados em repartições oficiais, empresas e até restaurantes.

Nem os Estados Unidos, sua principal obsessão, nem seus inimigos internos, nem mesmo a queda do bloco soviético há quase duas décadas puderam tirá-lo do poder durante mais de 47 anos.

Apenas uma grave doença o obrigou a delegar funções a seu irmão mais novo e segundo homem do regime, Raúl, em 31 de julho de 2006.

Amparado por um eficaz aparelho de segurança, o líder cubano desenvolveu uma rede de organizações de massas para estruturar a sociedade cubana e manter seu modelo durante décadas.

Algumas de suas fórmulas tinham sido testadas em outros países comunistas, mas outras foram invenções genuinamente cubanas, como os Comitês de Defesa da Revolução - os "olhos e ouvidos" do regime -, criados na década de 1960 para vigiar os movimentos dos cidadãos em cada região.

Mas, além desta complexa estrutura, defensores e detratores concordam em que seu carisma e sua habilidade política para transformar os fracassos em vitórias foram decisivos para a longevidade do sistema.

Fidel, o jovem advogado que enfrentou Batista em uma guerra desigual (entre 1956 e 1959), soube aproveitar o profundo descontentamento social gerado pela ditadura no poder e ganhar o apoio popular.

País com muitas questões pendentes e uma história muito curta como Estado livre após a independência da Espanha, em 1898, Cuba encontrou em Fidel um caudilho que parecia capaz de dar à nação uma identidade, acabar com as desigualdades históricas e abrir a porta do futuro.

Milhares de cubanos o apoiaram desde que desembarcou do iate Granma, em 1956, comemoraram sua vitória em 1º de janeiro de 1959 e se entregaram incondicionalmente ao projeto revolucionário.

"Fifo", "Cavalo", "Chefe", "Comandante", "Líder Máximo" são apenas alguns dos nomes pelos quais ele é conhecido em Cuba.

Fidel introduziu na ilha reformas sociais, educativas e de saúde sem comparação na América Latina na época e colocou Cuba na agenda internacional, enquanto se afirmava no poder.

Às vésperas de sua grande vitória na Baía dos Porcos, em 1961, declarou a revolução "socialista" e apoio à agora extinta União Soviética para afirmar a subsistência econômica do país, enquanto crescia seu confronto com os Estados Unidos.

Se um homem é medido pela importância de seus inimigos, o líder cubano teve sonhos grandiosos: igualar Cuba aos EUA. Viu passar dez presidentes pela Casa Branca e não se cansou de criticar suas políticas.

O embate com Washington e as campanhas na África e na América Central tiraram o foco dos problemas internos dos cubanos, que um dia acordaram com um país em colapso após a queda do bloco soviético e submergido no chamado "período especial", uma economia de guerra em tempos de paz que forçou Fidel a se abrir ao turismo e ao dólar.

No começo do século XXI, quando parecia abatido e obrigado a aumentar a abertura, encontrou no presidente venezuelano, Hugo Chávez, um discípulo disposto a usar seu petróleo para ajudá-lo.

Mas nem o petróleo de Chávez pôde ajudá-lo a resolver os graves problemas do país, acumulados durante décadas, nem as desigualdades provocadas pelas contradições de seu modelo. EFE mar/db/fr

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG