Fidel Castro, um aniversariante ateu em sintonia com raízes revolucionárias do cristianismo

O líder cubano Fidel Castro é o aniversariante da semana: completa 82 anos nesta quarta-feira, 13 de agosto, passando seus dias afastado do governo, entre livros, jornais e despachos de agências internacionais, escrevendo editoriais e praticando exercícios, em meio a um controle médico sistemático.

AFP |

Segundo detalhes dados por ele mesmo, em seus artigos para a imprensa, levanta-se cedo, toma remédios e se alimenta, faz exercícios e começa a ler "cuidadosamente todos os dias as opiniões sobre Cuba divulgadas por agências tradicionais de notícia".

Ao anunciar a renúncia ao cargo, no dia 19 de fevereiro, Fidel definiu seu novo perfil: "Não me despeço de vocês. Desejo apenas combater como um soldado das idéias. Continuarei escrevendo sob o título Reflexões do Companheiro Fidel", acrescentou.

No entanto, ainda que desejasse reencarnar num escritor, Fidel Castro não acredita numa outra vida; nem sequer na eterna, embora esse ateu comunista comungue com o pensamento cristão, o qual considera "revolucionário" em sua ética e origem.

Nascido num lar católico, Castro foi mandado desde pequeno a escolas de ordens religiosas, nas quais adquiriu ampla cultura católica. Ele incorpora em seu inquieto caráter o sentido de sacrifício e elementos da ética cristã.

Durante a luta contra a ditadura de Fulgêncio Batista (1952-58), Castro organizou um movimento plural do ponto de vista religioso, tanto para tomar de assalto o Quartel Moncada (1953), quanto para a expedição do Granma (1956) ou para a luta guerrilheira em Sierra Maestra (1956-58).

Católicos, evangélicos e maçons integravam sua tropa. A intervenção do Arcebispo de Santiago de Cuba, Monsenhor Enrique Pérez Serantes, evitou que Castro fosse assassinado após o fracasso do Moncada; o sacerdote Guillermo Sardiñas, com o grau máximo de comandante, atuou como capelão em sua coluna da Sierra Maestra.

Em seu encontro com Frei Betto, em 1986, Castro explicou que do ponto de vista educativo, fixou sua atenção "para os aspectos revolucionários da doutrina cristã".

"Ao longo destes anos, tive a oportunidade de expressar a coerência que existe entre o pensamento cristão e o pensamento revolucionário", acrescentou.

Mas após o triunfo da Revolução de 1959, e sobretudo depois da definição de seu caráter socialista em abril de 1961, teve início um enfrentamento com a hierarquia católica.

Boa parte das propriedades da Igreja Católica, sobretudo colégios, figurava entre as nacionalizações realizadas pela revolução. A hierarquia eclesiástica perdeu também acesso aos meios de comunicação.

Os vigários satanizavam nos templos o novo governo comunista e apoiavam a oposição. Castro expulsou duas centenas de sacerdotes estrangeiros, sobretudo espanhóis.

Durante 48 anos de governo, as relações de Castro com os bispos católicos foram tensas e oscilantes. Após a crise dos anos 60, houve duas décadas de tensa convivência nos 70 e 80. Em seguida, anos muito difíceis com a crise econômica da década de 90.

As outras religiões também foram marginalizadas até 1992, quando o IV Congresso do Partido Comunista reconheceu a plena liberdade e igualdade de cultos e aceitou militantes crentes.

No entanto, Castro não era acusado de anticlerical. Foi amigo pessoal do primeiro núncio após o triunfo da revolução, monsenhor Cesare Sacchi.

Com o Papa João Paulo II houve uma corrente de empatia, além de coincidências de Castro com a doutrina social do Pontífice. Após sua visita à ilha, em janeiro de 1998, as relações Igreja-Estado se tornaram mais próximas.

Cuba, um dos últimos países comunistas, teve um verdadeiro luto oficial com a morte de João Paulo II.

A visão de Castro, como estadista, sobre a religião começou a variar após conversas com católicos no Chile, em 1971, e com evangélicos na Jamaica, em 1977.

Após sua entrevista publicada em todo o mundo como um livro, "Fidel e a Religião", Frei Betto o vê assim: "Fidel é um homem privilegiado por sua formação cristã e sua opção marxista".

Para seu amigo pessoal, o presidente Hugo Chávez, é um "cristão social", o que o líder cubano aceita com gosto.

Doutrinalmente, Castro segue se proclamando um marxista-leninista, mas nos últimos anos, quando descobriu "que quase tudo ficou para trás e que a vida tem seus limites", seu discurso se voltou mais para princípios éticos do que nas projeções dos clássicos do comunismo.

Pensa que o sentido da vida é adquirir "valores e conhecimentos" para ajudar os demais.

Perguntado por Stone se gostaria de viver para sempre, responde rápido: "Não, porque minha mente está acostumada às idéia de que há um período limitado de tempo".

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