Fidel Castro completa 83 anos com Cuba imersa em grave recessão

Antonio Martínez Havana, 12 ago (EFE).- O líder cubano, Fidel Castro, celebra nesta quinta-feira seu 83º aniversário, o quarto desde que uma doença intestinal o afastou do público e da Presidência, e completa a data num momento em que Cuba vive sua maior recessão desde o fim dos subsídios da União Soviética, há duas décadas.

EFE |

Seu irmão e sucessor, o general Raúl Castro, de 78 anos, anunciou medidas "nada agradáveis" e cortes de orçamento, pedindo aos cubanos que voltem ao campo para lavrar as terras cultiváveis que o Estado manteve ociosas por décadas, incentivando o uso de bois pois faltam tratores e gasolina.

O vice-presidente, José Ramón Machado, de 79 anos, diz que não existe outro remédio senão trabalhar e produzir, além de apertar ainda mais o cinto.

Não se esperam grandes celebrações no aniversário em um país com estantes vazias não só nas lojas de mantimentos subsidiadas, mas também nos supermercados em moeda estrangeira, onde os cubanos que têm acesso a dinheiro vivo completam o que não cobre a cartilha de racionamento.

Mas não faltam presentes para o aniversariante, como um "Dicionário de Pensamentos" com 1.978 referências de seus discursos e entrevistas, lançado no sábado em Havana, ou a exposição que 30 artistas dedicaram à data em Camaguey, entre outros.

Mesmo tendo deixado o comando, mudado o uniforme verde-oliva por roupa esportiva de marca e não falar em público há quase 37 meses, Fidel continua sendo o líder da revolução que completou 50 anos em janeiro e tem visível influência sobre o Governo e os 11,2 milhões de cubanos.

Há infinitas versões sobre o alcance dessa influência, desde aquelas que afirmam que o irmão mais novo não movimenta nem um alfinete sem permissão, até as que juram que o mais velho está totalmente afastado do poder, passando pelas que mencionam um "regime bicéfalo" com domínios pactuados.

Fidel é o líder, reitera Raúl Castro, que lhe dedica alguns "vivas" nos discursos e diz que lhe consulta em todas decisões, enquanto a imprensa oficial segue dedicando mais espaço ao comandante que ao general.

Segundo organizações de direitos humanos, nada mudou nesse âmbito desde 2006 apesar das expectativas que despertou Raúl Castro, ou que muitos imaginaram, porque ele diz não querer nem "restaurar o capitalismo" nem "abandonar a revolução".

Também não chegou a liberalização econômica que alguns aguardavam, já que as poucas reformas aplicadas só tentam trazer mais eficiência a um Estado travado pela overdose de ideologia e burocracia, além da renovação de comandantes da imprensa acusados de traidores em "expurgos stalinistas", disseram diplomatas europeus.

Fidel Castro exerceu o poder executivo durante 49 anos e 55 dias e ainda é o primeiro-secretário do Partido Comunista, único legal na ilha e com primazia sobre o Estado e a sociedade por mandato constitucional.

O segundo secretário, Raúl, anunciou dias atrás um novo adiamento indefinido do VI Congresso do Partido, que ele mesmo tinha convocado para o fim de 2009 e que devia renovar a cúpula escolhida há 12 anos.

Enquanto isso, o comandante escreve com frequência os artigos de "Reflexões", a maioria com a temática contra seu proverbial inimigo: os Estados Unidos.

Filho de um galego chamado Ángel Castro, que guerreou no lado perdedor quando Cuba se emancipou da Espanha e voltou como comerciante, Fidel Alejandro Castro Ruz é o quinto dos nove filhos que seu pai teve com duas cubanas, os dois primeiros de sua esposa Maria Luisa Argota, os outros da camponesa Lina Ruz.

Na Universidade de Havana, em meados de século XX, estudou Direito, começou suas lutas políticas e sua longa trajetória de sedutor de massas capaz de falar com invejável energia por mais de dez horas seguidas.

Construiu um sistema comunista tropical com ideias de Marx e Lenin, referências de independentistas cubanos como José Martí, inspirações nas trajetórias de lideranças caudilhistas latino-americanas e contribuições próprias: o único Estado do chamado "socialismo real" das América, localizado a pouco mais de 100 quilômetros dos Estados Unidos.

Gozou por décadas do respaldo majoritário e inclusive fervoroso de seus compatriotas, pelo menos até o desmoronamento do bloco soviético e, como dizem alguns cubanos, "se acabou a bolsa de estudos".

Agora o patrocinador é o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que fornece e subsidia a metade do petróleo que consome Cuba, em troca dos serviços de médicos, professores e outros especialistas.

Embora reconheçam suas conquistas em educação e saúde, os cubanos se queixam hoje da deterioração desses serviços, das restrições energéticas e da escassez de alimentos, moradia e transporte, mas não no ponto de despertar uma "explosão social", possibilidade descartada por analistas até em Miami. EFE am/fk

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