Festival do Rio: Paolo Taviani reivindica glória do cinema italiano

Omar Lugo. Rio de Janeiro, 27 set (EFE).- O diretor de cinema italiano Paolo Taviani reivindicou na sexta-feira, no Rio de Janeiro, a vigência do cinema de seu país e o valor artístico dos filmes que realiza ao lado do irmão Vittorio, muito além dos rótulos políticos.

EFE |

Paolo, que junto com Vittorio é um dos mestres vivos da sétima arte, apresenta no Brasil a última obra da dupla, "La Masseria delle Allodole" (2007).

O diretor de 76 anos é homenageado no Festival do Rio e traz à América do Sul "o filme mais atual" da dupla, sobre o esquecido genocídio do povo armênio pela Turquia, em 1915.

Em entrevista à Agência Efe, também falou do clássico cinema italiano do pós-guerra, do retrocesso conservador na Itália de hoje e do processo criativo dos irmãos que começaram na sétima arte após assistir a uma obra do mestre do neo-realismo Roberto Rossellini (1906-1977).

"É uma relação sem par. Somos duas naturezas diferentes com um mesmo sonho", disse, sobre esse trabalho a quatro mãos.

Paolo destacou que, até pouco tempo, atrás, na Itália, se afirmava que o grande cinema estava morto, mas que na cultura geral há períodos altos e baixos, e que agora os novos produtores estão fazendo coisas interessantes e "tenta não desanimar".

O diretor atribuiu o pessimismo a uma certa tendência de autores a "se vitimarem ao confrontar sua obra", principalmente em um país com uma tradição cinematográfica tão importante como a Itália.

"Vittorio e eu achamos que houve três momentos na história da cultura: o Renascimento, o melodrama dos anos 1800 e o cinema italiano do pós-guerra", com diretores como Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Rossellini, disse.

Ao falar de política e sobre um mundo intolerante, onde a Europa e os Estados Unidos fecham as portas para os imigrantes e nações inteiras vêem o estrangeiro como um inimigo, Paolo lembra que a história dá voltas.

"A Europa trata hoje os imigrantes da mesma forma como Argentina e Brasil tratavam os italianos", destaca, com uma deixa de ironia.

"Existe indubitavelmente um problema de organização da imigração" na Europa, disse, mas também se declara felizardo com a contribuição da diversidade cultural levada pelos imigrantes.

Sobre o conservadorismo crescente na Itália, Paolo disse que seu país vive um retrocesso "como o caranguejo anda para trás", com um Governo de direita que usa a televisão e os outros meios de comunicação de massa como fachada, "mas não vai ao coração dos problemas fundamentais".

O diretor manda sua mensagem aos novos criadores do mundo do cinema: "Só poderia dizer frases que são lugares-comuns". Afirma que não quer ser como o Grilo Falante da história de Pinóquio, que vivia emitindo juízos de valor.

"Acho que o ser humano, cada autor, cada um, tem que viver sua própria vida buscando se relacionar com os outros", disse.

Com relação ao tema de "La Masseria delle Allodole", disse que esse período terrível da história não é estudado o suficiente hoje em dia.

"Acredito que, assim, como o Governo italiano reconheceu os horrores do fascismo e a Alemanha fez o mesmo com o nazismo, na história de cada nação existem páginas obscuras de horror e temos que ter a coragem de encará-las", disse.

Paolo acrescentou: "Não compreendo por que o Governo turco não quer reconhecer o horror do genocídio armênio".

"É um problema atual, também na América do Sul", destacou, ao se referir aos países que passaram por ditaduras e não acertaram suas contas com a história.

No entanto, o roteirista de "Pai Patrão" (1977) e "A Noite de São Lourenço" (1982) diz que seria simplista definir a obra da dupla como cinema político.

"Nós nos perguntamos se é possível ficarmos indiferentes em relação ao que acontece no mundo, na África, na Ásia", disse, ao contar como escolheram o livro "La Masseria delle Allodole", de Antonia Arslan, para fazer o filme.

"Refletimos sobre o fato de que os acontecimentos de então são iguais aos de agora, o que nos dava a possibilidade de fazer um filme contemporâneo, embora essas coisas tenham acontecido em 1915", expressou. EFE ol/wr/an

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