Ferro-velho revela segredos de massacre na Guerra do Iraque

Documentos que EUA previam destruir após retirada no dia 31 são descobertos dentro de trailer e revelados pelo The New York Times

The New York Times |

Documentos secretos contendo transcrições de interrogatórios de fuzileiros navais e de seus comandantes, encontrados por iraquiano em um ferro-velho próximo a Bagdá, revelou um dos mais terríveis episódios do período da ocupação americana no Iraque.

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Ferro-velho onde documentos foram encontrados no Iraque

Todas as 400 páginas com segredos de guerra, reveladas em reportagem do The New York Times, estavam programadas para serem destruídas assim que os últimos soldados americanos deixassem o país.

Os documentos – muitos deles marcados como secretos - fazem parte de uma investigação militar interna e revelam muito do massacre contra civis que deixou dezenas de mortos em Haditha, cidade localizada no rio Eufrates. 

De acordo com o The New York TImes, na manhã do dia 19 de novembro de 2005, um comboio militar de quatro veículos se encaminhava para um posto avançado em Haditha, quando um dos veículos foi atingido por uma bomba.

Fuzileiros navais correram para socorrer os feridos, incluindo um que teria morrido, enquanto outros procuravam por insurgentes que poderiam ter lançado a bomba. Em poucas horas, 24 iraquianos, incluindo um homem de 76 anos, e crianças de idades entre 3 e 15 anos, foram mortas, muitas delas dentro de suas casas.

Os moradores da cidade afirmaram que os fuzileiros navais tiveram uma reação exagerada ao ataque da bomba e dispararam contra civis, dos quais somente um estava armado.

O caso da cidade de Haditha contribuiu para a solidificação de uma desconfiança iraquiana em relação aos EUA e um pouco de ressentimento, pois nenhum fuzileiro foi condenado pelos crimes.

Acusações foram retiradas contra seis dos fuzileiros navais acusados no episódio de Haditha, um foi absolvido e o último deles deve ir a julgamento no ano que vem.

Essa sensação de impunidade não deixou nenhuma chance para que as forças americanas permanecessem no Iraque, porque os iraquianos não os deixariam ficar sem que estivessem sujeitos à lei e aos tribunais do país , uma situação que a Casa Branca não podia aceitar.

“Quero dizer, se isso é resultado de nossa ação ou de outra ação, você sabe, descobrir 20 corpos degolados, 20 corpos decapitados, 20 corpos aqui, 20 corpos ali”, disse a investigadores na ocasião o coronel Thomas Cariker, um comandante na província de Anbar.

Civis iraquianos eram mortos o tempo todo. O major Steve Johnson, comandante das forças americanas em Anbar descreveu em seu testemunho que a morte de civis eram “um custo para poder fazer o negócio”.

Segundo os depoimentos, o stress do combate deixou alguns soldados paralisados. Militares, traumatizados pela crescente violência e se sentindo constantemente sob vigilância, mataram mais e mais civis em encontros acidentais. Outros se tornaram tão insensíveis e acostumados com a morte, que atiravam deliberadamente em civis iraquianos enquanto seus companheiros tiravam fotos - e acabaram em cortes marciais pela prática.

Questionado sobre os documentos encontrados, o coronel Barry Johnson, porta-voz dos militares americanos no Iraque, disse que muitos desses documentos deveriam ter sido destruídos. “Apesar da maneira nas quais eles foram indevidamente descartados e acabaram em sua posse (do jornalista), não temos liberdade para discutir informações confidenciais.”

Ele acrescentou: “Nós levamos muito a sério qualquer vazamento de informações confidenciais. Nesse caso, os documentos estão sendo revisados para determinar se uma investigação é justificada.”

Os militares afirmaram não saber de qual investigação esses documentos vieram, mas os papéis aparentam vir de um inquérito do Major Eldon Bargewell sobre os ocorridos em Haditha.

Os documentos levaram a um relatório que concluiu que o Corpo de Fuzileiros Navais estava relacionado a uma “negligência grosseira” ao não investigar o episódio. Esse relatório, entretanto, não conta com as transcrições.

Alguns dos fuzileiros, sentindo que estavam sob ataque, decidiram usar primeiro a força para depois fazer perguntas. Por exemplo, quando um motorista atravessava um posto de controle sem parar o carro, ele era tido como um homem-bomba. “Quando um carro não para, e atravessa a linha (do posto de controle), sim, senhor, alguns morrem sem ter nada a ver”, testemunhou na ocasião o sargento Edward T. Sax.

Ele acrescentou: “Fuzileiros que tinham matado crianças em carro tinham que falar com seus companheiros individualmente, um a um, porque eles enfrentavam dificuldades ao lidar com isso.”

O sargento disse que iria perguntar aos fuzileiros responsáveis se eles sabiam que tinham crianças dentro do carro. Quando eles dissessem não, segundo ele, iria dizer a eles que eles não tinham culpa. O sargento afirmou também que sentia muito pelos fuzileiros que tinham disparado os tiros, afirmando que eles carregariam um fardo para toda a vida.

“Uma coisa é matar um insurgente com um tiro na cabeça. Outra coisa completamente diferente – e eu odeio dizer isso, da forma como crescemos na América – ferir uma mulher ou uma criança, ou ainda, na pior das hipóteses, matar uma mulher ou matar uma criança.”

Em um dos depoimentos, o coronel R. Kelly disse que alguns fuzileiros tiraram fotos enquanto matavam as pessoas. Segundo seu testemunho, quando esse fato ocorreu, eles imediatamente chamaram o Serviço de Investigação Criminal Naval e “confiscaram a câmera” e que os envolvidos foram convocados à corte marcial.

O comandante K. R. Norwood, que recebeu os registros iniciais que apontavam que mais de 20 civis tinham sido mortos em Haditha, afirmou em seu depoimento que o número de civis mortos não era algo incomum.

Quando um investigador perguntou a ele se o fato de 20 civis estarem mortos não teriam capturado sua atenção no momento em que recebeu os registros, ele respondeu: “Não naquele momento, senhor.”

“Acontecia o tempo todo, não necessariamente em MNF-Oeste o tempo todo, mas pelo país inteiro”, testemunhou o general Johnson, usando uma abreviação militar para forças aliadas no oeste.

“Então, você sabe, talvez – eu penso talvez se eu estivesse sentado aqui em Quantico e ouvisse que 15 civis tinham sido mortos, eu ficaria surpreso e chocado e teria feito mais pra investigar isso”, disse em referência à base Quantico em Virgínia. “Mas naquele ponto, naquele momento, eu senti que era – por qualquer razão – parte do compromisso, e eu senti que era somente o cuso de fazer o negócio naquele compromisso em particular.”

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Transcrições de entrevistas com militares de investigação sobre o massacrede Haditha são encontradas

Quando os fuzileiros chegaram à cena do incidente para contar o número de corpos, pelo menos um deles achou que fosse uma boa idéia tirar fotos para uso próprio. Um dos seus superiores, então, pediu a ele que apagasse as imagens.

Os documentos encontrados pelo repórter tinham sido amontoados em trailers militares que foram transportados para um ferro-velho por um iraquiano que tentava vender os excedentes das bases americanas.

Segundo o funcionário do ferro-velho, ele não fazia idéia sobre o que se tratava os documentos, mas sabia que eram importantes para os americanos. Ele disse que por semanas, queimou dezenas e dezenas, transformando outras histórias secretas em cinzas.

Michael S. Schmidt

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