Fernando Lugo, o ex-bispo que foi do púlpito ao poder no Paraguai

Assunção, 15 ago (EFE).- O ex-bispo Fernando Lugo tomou posse hoje como presidente do Paraguai para o período 2008-2013, após obter a redução ao estado laical, em uma decisão sem precedentes do Vaticano.

EFE |

Lugo nasceu em 30 de maio de 1951, em San Pedro del Paraná, no departamento paraguaio de Itapúa (sul), embora tenha crescido na capital departamental La Encarnación.

De família humilde, o paraguaio viu seus pais, Guillermo Lugo e Maximina Méndez, sofrerem com a repressão durante a ditadura do general Alfredo Stroessner, e serem presos, assim como outros de seus parentes, por serem militantes dissidentes do governista Partido Colorado.

Em março de 1970, Lugo ingressou no Noviciado dos Missionários do Verbo Divino, professou em setembro de 1972 em Assunção e em 1975 fez os votos perpétuos.

Paralelamente, estudou na Universidade Católica Nuestra Señora de la Asunción, na capital paraguaia, na qual se formou em Ciências Religiosas.

Após ser ordenado sacerdote, em 15 de agosto de 1977, viajou para o Equador, onde foi missionário na diocese da província de Bolívar como professor e pároco em Guaranda e Echeandía.

No país, viveu de perto os problemas sociais, se interessou pela Teologia da Libertação e trabalhou com um de seus maiores expoentes no Equador, monsenhor Leónidas Proaño, conhecido como "o bispo dos pobres".

Em 1982, retornou ao Paraguai e foi ajudante de mestre de noviços no Colégio Verbo Divino. Em 1983, se transferiu a Roma, onde estudou Espiritualidade e Sociologia, formou-se em Sociologia e se especializou em Doutrina Social da Igreja.

Foi professor do Instituto Superior de Teologia de Assunção, membro da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Paraguaia e da equipe de Reflexão Teológica do Conselho Episcopal Latino-americano.

Em 1992, foi nomeado superior provincial dos Missionários do Verbo Divino no Paraguai, e vice-presidente da Confederação de Religiosos do Paraguai.

Em 17 de abril de 1994, foi ordenado bispo e alocado na diocese de San Pedro, no centro do país, onde se identificou com os mais pobres e especialmente os camponeses sem-terra.

Em 2005, passou a ser bispo emérito e despontou como figura política por suas críticas ao Governo do presidente Nicanor Duarte, a quem substituirá na próxima sexta-feira.

Em março de 2006, impulsionou a organização Resistência Cidadã, integrada por partidos opositores, cinco centrais sindicais e uma centena de associações civis. Em junho de 2006, o Movimento Pátria Querida, segunda força opositora, lhe pediu que liderasse uma concertação para acabar com 61 anos de poder do Partido Colorado, desafio que foi prontamente assumido.

Em 18 de dezembro de 2006, renunciou ao estado clerical e no natal anunciou seu ingresso definitivo na política, com a intenção de apresentar sua candidatura à Presidência nas eleições de abril de 2008.

O Vaticano rejeitou seu pedido de voltar ao estado laico e em 2007, Bento XVI lhe suspendeu "a divinis" (proibição de administrar sacramentos e ensinar doutrina).

Em 17 de junho de 2007, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), maior força opositora do país, apoiou sua candidatura presidencial, que foi criticada pelo Governo, que considerava que seguia sendo bispo, quando a Constituição proíbe os religiosos de se candidatarem à Presidência.

Em 17 de julho de 2007, a Concertação Nacional apoiou sua candidatura, e em 18 de setembro nove partidos e 20 organizações sociais de amplo espectro ideológico criaram a Aliança Patriótica Para a Mudança (APC), promotora de sua candidatura, sustentada pelo PLRA.

Em 30 de outubro de 2007, filiou-se ao Partido Democrata Cristão, e em 31 de janeiro de 2008, inscreveu sua candidatura presidencial.

Em 20 de abril de 2008, ganhou as eleições presidenciais com 40,82% dos votos, com 10 pontos percentuais a mais do que Blanca Ovelar, do Partido Colorado, quebrando assim 61 anos de hegemonia dos "colorados".

Lugo se comprometeu a liderar um Governo caracterizado "pela honestidade, e não pela corrupção". Por sua parte, o presidente Duarte garantiu a transferência pacífica de poder, e as Forças Armadas reafirmaram seu respeito à orientação política do novo Governo.

Em abril, a APC assegurou que adotaria um programa de "esquerda moderada", e que pactuaria com outras forças para resistir no Congresso à maioria do Partido Colorado.

Em 23 de maio, a Justiça Eleitoral o proclamou presidente do Paraguai, e em 13 de junho apresentou seu Governo.

Em 30 de julho, a Nunciatura em Assunção divulgou a dispensa outorgada a Lugo pelo Vaticano, que em uma decisão sem precedentes o reduziu ao estado laical, por meio de um decreto assinado em 30 de junho. EFE rg/gs

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