Abraham Zamorano. Cobija (Bolívia), 10 out (EFE).- Um mês após o massacre no departamento (estado) boliviano de Pando, onde pelo menos 15 pessoas morreram em um choque civil entre camponeses governistas e autonomistas opositores, as feridas continuam abertas em forma de ódio e repreensão.

Amanhã, 11 de outubro, completará um mês do episódio mais violento na última onda de conflito que a Bolívia vive, conseqüência do grave confronto político entre o projeto do presidente Evo Morales e a reivindicação autonomista de várias regiões governadas pela oposição.

Um caminho amazônico entre Cobija, a capital de Pando, e a pequena localidade de Porvenir foi o cenário de um sangrento choque civil armado que acabou com um número ainda não preciso de mortos, cerca de 15 segundo fontes oficiais, quase todos camponeses partidários do Governo.

"Só queríamos participar de uma assembléia quando fomos massacrados", disse à Agência Efe, em Pando, um dos representantes dos movimentos simpatizantes de Morales.

"Centenas de camponeses armados vinham dispostos a tomar Cobija e a queimar a Prefeitura (Governo)", disse um dos opositores que optaram por fugir para o Brasil (de Cobija é possível atravessar a fronteira andando) e começar os trâmites para obter a condição de refugiados.

Estas testemunhas consultadas pela Efe refletem as distintas versões sobre fatos que ainda não foram totalmente esclarecidos e que estão sendo investigados por instâncias nacionais e internacionais.

Para o Governo Morales, o que ocorreu em Pando foi um "massacre de camponeses" articulado pela Prefeitura e pelo qual deve responder o então governador, o opositor Leopoldo Fernández, que se encontra detido em La Paz.

No entanto, os simpatizantes de Fernández negam que tal massacre tenha ocorrido e afirmam que entre os camponeses apenas duas pessoas morreram, além de seis venezuelanos que teriam sido infiltrados pelo Governo.

O Executivo desmentiu o envolvimento de venezuelanos e em Santa Cruz (leste) esta acusação está sendo investigada.

Já no departamento amazônico do norte boliviano, que está em estado de sítio, ainda é possível encontrar feridos nos hospitais, carros queimados cheios de marcas de balas e centenas de deslocados ao Brasil.

Junto ao forte resguardo militar brasileiro na fronteira do país com Cobija, estes são só alguns dos exemplos dos restos deixados pelo que constituiu uma autêntica batalha.

Os governistas defendem que em 11 de setembro iam desarmados, com crianças e mulheres, a uma assembléia para depois marchar de forma "pacífica" até Cobija, enquanto os opositores acusam o Governo de ter proporcionado armas a suas bases para provocar a violência.

Carlos Haensel, um dirigente sindical da Filadélfia, localidade de Pando onde o Movimento ao Socialismo (MAS, o partido de Morales) tem forte apoio, afirma que os camponeses sofreram uma "emboscada" na qual a Polícia também participou.

"Eles (os opositores) (...) organizaram o massacre. Não queríamos enfrentamentos, mas passaram três meses nos agredindo", disse Haensel junto aos restos do que foi a Prefeitura da Filadélfia, incendiada um dia depois dos enfrentamentos.

No entanto, os opositores explicam que estavam em "vigília" perante a chegada a Cobija de camponeses que, segundo suas notícias, estavam armados.

Quando os dois grupos se encontraram em um primeiro choque, o primeiro a morrer pelos disparos, dizem os autonomistas, foi Pedro Oshiro, cuja morte provocou a ira dos moradores de Porvenir que tiraram armas para se defender e se vingar.

Assim o relatou à Efe Hugo, um opositor autonomista que esteve presente no enfrentamento, onde ficou ferido, e que foi testemunha da morte de Oshiro.

Apesar dos rancores e das repressões que ainda estão à flor da pele, nesta região militarizada reina uma espécie de tensa calma que só se vê alterada pelas longas filas perante os postos pelo desabastecimento de combustível.

A população de Pando, alheia à crise econômica global, vive ainda preocupada com um problema particular: o fechamento da alfândega na fronteira com o Brasil, o que diminuiu o número de brasileiros que vão a Cobija para fazer compras.

"Cobija é uma cidade comercial que vive da venda de pequenos produtos. Com o estado de sítio e a alfândega brasileira fechada, eles já não vêm comprar do lado boliviano", explicou o deputado opositor Ronald Camargo. EFE az/ab/plc

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