Para todos os efeitos, continuo de férias. Deve ser o bronzeado que só o vento de Cascais sabe emprestar aos balneares.

Quatro semanas. E estranho os ingleses nas ruas, o dirigir no lado esquerdo. Desando com todos os controles remotos e aquecedores (verão, é?) de casa.

Descansarei, para os próximos dias, com os desconfortos físicos acumulados durante sete anos, mesmo sem pixina, a loção e a única mosca de Portugal que cismou comigo. No final, já a batizara de Rose e, à nossa maneira, entendíamo-nos.

Mas quatro semanas em Portugal são muito tempo para se resumir em uma única crónica (sic), a de quarta-feira, 20 de agosto.

Mais, muito mais me ocorreu e se me ocorreu. Coisas fabulosas, fantásticas mesmo. De adamastores gigantes. Vou exemplificando.

Na pixina, lendo os jornais, abri os livros bonificações (grátis, né?) que acompanharam, em diversos dias da semana, o meu jornal diário, comprado no jornaleiro onde tomava minha bica e devorava meu pastel de natas (dane-se a incipiente diabete).

Uma antologia de poesia portuguesa preparada pelo ex-presidente Mário Soares.

Dei-me conta, e com vaidade indevida conto, que li, sublinhando (eu sou homem de levar caneta bic para a pixina), cantares de D. Dinis, enquanto me digladiava com Rose, nossos corpos afogando com brandura em loção de bronzear.

Li Cesário Verde, José Régio, Antonio Boto, Fernando Pessoa, evidentemente, em diversos de seus heterónimos (sic de novo), Alexandre O´Neill e muita gente nova e boa que desconhecia.

Poesia e piscina. Em Português do Brasil num dá, mas num dá mesmo. Valeu. Como dizem os brasileiros ao fracassarem no assalto a banco.

Tomei nota. Tomei muitas notas. Observações personalíssimas sobre o reencontro com a água de coco brasileira, oriunda do simpático Ceará, que, mesmo comercial, satisfaz, com palhinha e tudo, meus instintos de brasileiro fundista sem medalha mas rosto de bronze.

Degustei como se bebesse cores e gostos lisérgicos de pelo menos 15 dos primeiros 42 anos de minha vida, refresco de xarope de groselha.

A groselha, apesar de fabricada em Portugal, é a cara e o gosto escarrados - e peço perdão pela baixa linguagem empregada para tão nobre refrescante - daqueles que me lembrava.

E dos quais me lembrarei sempre. Com essa novidade: refresco de groselha não me remete mais só ao Rio. Faço escala em Cascais. Idem para a água de coco. Falta só o coco. Prometeram para o ano que vem. Se ano que vem eu tiver.

Em tempo: no Jumbo de Cascais, eles vendem também o xarope de capilé. Esse deixei para outra vez. Não há bebida que embriague como os refrigerantes do passado.

Gosto dos portugueses quando não batizam com nome idiota lojas e bares. Do Farta-Brutos, já falei e até demais. Mas anotei ainda: O Pé-de-meia (claro, só vendem meias). A Casa do Largo (um larguinho, com igreja, banquinho, velhinho aposentado de boné e tudo) com um bar vizinho que adotou o nome de A Casa do Lado, para não confundirem. Ou confundirem. A Outra Casa, em outro lugar, distante, cujo mistério nunca decifrei. A Oficina de Reparos, onde consertam roupas masculinas e femininas. O Sobe e Desce, porque é um bar com dois andares. O restaurante Os Prazeres da Carne, que é de brasileiro que sabe das coisas: tem picanha e a ubíqua (pegou mesmo, gente) caipirinha. Para não falar da mousse de manga. E assim por diante. Ah, sim. Tem A Casa de Pasto A Económica (onde se toma um excelente sic logo na entrada).

Dei para falar sozinho. Só em férias. Se a mania pegar, pegou. Nada mais do que comigo se passa me espanta.

Caminhando de manhã para pegar meu jornal com brinde (teve dias de DVD do Antonioni e do centenário Manoel de Oliveira aompanhados de fartos livros acadêmicos em bom papel originários do Cahiers du Cinéma) vou recitando, como um antologizado do ex-presidente Mário Soares, frases e palavras que só ouço aqui mas que guardarei para sempre, como uma flor ou um programa de teatro dentro de um romance vagabundo esquecidos: "Estou-me nas tintas". "Cabras! Pegas!" Cuidado, olha o chui!" "Essa foi muito fixe." "Vai te lixar, ena!" "Tem muito piada o Herman Lima" "Porreiro o Castelo da Pena em Sintra, pois não?"
Confesso que ainda luto, como a princípio lutei com Rose, com a manchete da primeira página do caderno esportivo do meu jornal, devidamente mantido anônimo, em sinal de respeito, e alguma admiração.

Lá estava, em letras garrafais, anunciando as últimas aventuras na compra de carros esporte, que já chamamos de "baratinhas", e na conquista de belas mulheres, que já chamamos de coisas horrendas: "O puto-maravilha continua fazendo das suas!"
Eu acho o Cristiano Ronaldo um excelente jogador, mas jamais, mesmo torcendo pelo Arsenal ou pelo Real Madrid, diria dele uma coisa dessas.

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