A cidade italiana de Milão se transformou em vitrine do design mundial neste mês. Cerca de 400 eventos foram e continuam a ser realizados em paralelo à feira principal do Salão Internacional do Móvel, que termina nesta terça-feira.

O evento abriu as portas para um público de compradores e curiosos de quase 300 mil pessoas ávidas para conhecer as novidades de 140 países expositores. A maior feira do setor no mundo revelou as tendências dos objetos de uso cotidiano e apresentou 400 eventos artísticos espalhados pela cidade, com exposições e mostras.

Todos os anos o Salão troca de mobília e de tema central. O deste ano foi o respeito ao meio ambiente. Instalações cobriram os espaços públicos de Milão. Restaurantes criaram jardins suspensos em meio à selva de pedra no centro da cidade.

No parque Sempione, cadeiras, mesas e vasos de até cinco metros de altura quase se mimetizam com as árvores. Eles foram forrados com grama sintética, mas de longe não se nota a diferença em relação à verdadeira. "Parece uma resposta da natureza contra a agressão do homem", disse à BBC Brasil a italiana Laura di Maria. "No fim ela toma conta de tudo."
Meio ambiente
A natureza também está presente na exposição Brasil-Design do Século 21. Ela foi armada no Ibrit, Instituto Brasil-Itália, e traz peças de artesanato, decoração e mobiliário dos Estados do Ceará, Maranhão e Piauí.

Entre os itens presentes estão luminárias feitas com palha de carnaúba e de buriti, imagens em madeira de Juazeiro do Norte, jóias com opala e outras pedras e até peças fabricadas com sobras de madeira no pólo moveleiro da cidade de Marco e na cidade de Buriticupu.

Mas a grande atração foi armada no pátio interno da universidade estatal de Milão. Lá dentro, materiais recicláveis e energia alternativa se traduziam em projetos concretos. Um poste de iluminação pública funcionava com a força gerada pelos raios do sol. As células fotoelétricas têm a forma das folhas e as lâmpadas pendiam dos "ramos".

A poucos metros dali, uma pequena pá eólica em pexiglass girava ao sabor do vento e produzia energia para acender um televisor ou manter ligado o sistema de irrigação de um jardim. A criação de Philippe Starck, renomado designer francês, garante corrente elétrica limpa e gratuita.

"Vai chegar o dia que você vai poder vender energia ao teu vizinho", comentou ele, ao apresentar o seu protótipo realizado pela Pramac.

Feira
A geringonça eco-sustentável deve chegar ao mercado no fim do ano, assim como boa parte dos produtos expostos na feira de Rho, palco principal do Salão Internacional do Móvel.

A estrutura futurística - uma vela gigantesca em aço e vidro e que cobre uma superfície de 230 mil metros quadrados - criada pelo arquiteto Massimiliano Fuksas foi ocupada por cadeiras, poltronas, sofás, mesas, camas, banheiras, estantes e cozinhas que somem e aparecem com um simples comando eletrônico.

Criatividade nas formas e tecnologia na pesquisa e aplicação de novos materiais garantem o alto padrão de qualidade dos produtos finais, principalmente por parte das empresas italianas, tradicionais lideres do setor.

Um pavilhão da feira foi ocupado por 500 jovens de todo o mundo com os seus protótipos nas mãos. Um deles traz uma esfera de vidro como vaso e com uma lâmpada que se acende quando alguém se aproxima, simulando o efeito da fotossíntese. A idéia foi de Merijin Van Essen, holandesa de 25 anos.

E no meio de uma multidão de designers, famosos ou anônimos, dois brasileiros se destacam e disputam a atenção da imprensa estrangeira. Os irmãos Campana comemoram dez anos de sucesso em um território altamente competitivo em parceria com a empresa italiana Edra.

Eles celebraram o marco trazendo para o Salão a cadeira Aguapé. Ela foi toda construída com pedaços de couro cortados a laser.

"A idéia veio de uma pesquisa de colocar várias camadas de couro onde elas pudessem se auto-estruturar e compor todo o corpo de uma cadeira, sem nenhuma armação metálica. Uma espécie de sela de cavalo", disse Fernando Campana à BBC Brasil.

Tanto reconhecimento internacional tem a sua razão de ser: "A gente mostra o nosso caos, as nossas imperfeições, mas de uma forma positiva, com modernidade. Quando crio sempre penso nas nossas raízes, sem sentir vergonha alguma", acrescenta Humberto Campana.

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