Feira francesa é abalada com suposto caso de artista zoofílico

Luis Miguel Pascual. Paris, 30 out (EFE) - A retirada de parte das obras do artista russo Oleg Kulik da Feira Internacional de Arte Contemporânea (FIAC) de Paris por seu conteúdo zoofílico provocou polêmica no mundo artístico francês, que se rebelou contra o que considera um caso de censura. Agentes à paisana causaram abalo na última semana na FIAC ao retirar das paredes da galeria russa XL a metade das fotografias de Kulik, que datam dos anos 1990, nas quais o artista aparece nu em atitudes que podem ser interpretadas como zoofílicas. Em uma delas, o fotógrafo aparece nu e beijando um cachorro na boca e, em outra, o polêmico artista, também sem roupa, está em cima de um veículo com uma coleira no pescoço. Em virtude do artigo 227-4 do código penal francês, os policiais levaram as fotografias, detiveram os galeristas, que foram interrogados durante duas horas em uma delegacia, e ordenaram à FIAC que não voltasse a expor as imagens. Para a Procuradoria, as obras do russo desprezam a condição humana, segundo fontes judiciais, as quais afirmaram que, expostas na FIAC, têm o agravante de que podem ser vistas pelas crianças. O Observatório da Liberdade da Criação reagiu rapidamente e denunciou, em comunicado, o fato de ser a Polícia a encarregada de zelar pela moral da sociedade. A agente de Kulik, Jacqueline Rabouan-Moussion, denuncia agora, em declarações à Agência Efe, que se trata de censura. Quando não se tem sensibilidade artístic...

EFE |

A agente rejeita que Kulik seja um provocador. "Está acima dessas coisas", assegura, mas reconhece que a intervenção policial não causou surpresa.

"Já estamos acostumados", destacou, antes de lembrar que, em 1995, o artista russo foi detido em Zurique quando surgiu completamente nu e com uma coleira no pescoço na inauguração de uma instalação do Kulik em uma conhecida galeria da cidade suíça.

Para Rabouan-Moussion, a retirada das obras de Kulik "faz parte da própria instalação", porque demonstra "que nem todo o mundo está preparado para entender a arte como uma forma de mudar a sociedade".

O artista russo, que afirma que não se sente humano, começou a se aproximar do mundo animal no início da década de 1990, quando a desintegração do modelo de sociedade soviética lhe deixou sem nenhuma referência real.

"Então, decidiu voltar a seu lado mais primário, à sua animalidade, para tentar construir uma nova ordem", lembra Rabouan-Moussion.

"Nunca fui humano. Ser humano exige a exclusão de tudo o que não é humano, seja animal ou divino", afirmava o artista.

Desde então, suas fotografias, nas quais aparece sempre nu e com animais ou em posições típicas de animais, percorreram todo o mundo, como a Tate Modern de Londres, a Jeffrey Deitch de Nova York, a Bienal de Viena ou a Escola de Belas Artes de Paris.

Sua arte seduziu os críticos e o próprio o Estado francês tem em seus fundos obras de Kulik.

Na FIAC, que fechou as portas no fim de semana passado, seu diretor, Martin Bethenod, assegura que a intervenção policial "mostra que se põe em questão o direito dos artistas de serem artistas".

Com ironia, o Observatório da Liberdade de Criação avisou de uma pronta intervenção policial no Museu do Louvre. "Ali, se vêem sexos à altura das crianças, jovens nus brincando com tartarugas", afirma.

EFE lmpg/db

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