Favelização se multiplica em Manila como fonte de votos para políticos

Eric San Juan. Manila, 4 mai (EFE).

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Eric San Juan. Manila, 4 mai (EFE).- O número de moradores de favelas se multiplica em Manila à medida que se aproximam as eleições gerais de 10 de maio nas Filipinas, com a permissividade de governantes locais para que essas comunidades se tornem vastas fontes de votos. Os últimos dados oficiais revelam que pelo menos 517.175 famílias (no mínimo 3 milhões de pessoas) moram em casebres construídos em terrenos que pertencem ao Governo ou a proprietários privados. Faltando contabilizar os dados de quatro dos 17 distritos da região metropolitana de Manila, o número de favelados beira o recorde de 545 mil famílias registrado em 2007, também um ano eleitoral. O Comitê sobre Ocupantes Informais de Manila (MMIAC, na sigla em inglês) acusou em seu último relatório alguns governantes locais de tolerar a favelização descontrolada para se aproveitar desse celeiro de votos. Além das condições insalubres nas quais vive a maioria dessas famílias, as moradias ilegais frequentemente agravam os efeitos dos desastres naturais que atingem o país todos os anos. Há uma semana, uma dessas áreas de construções precárias de madeira no distrito de Quezon City foi castigada por um incêndio de grandes proporções que deixou cerca de 7 mil pessoas desabrigadas. Os moradores da comunidade agora caminham, dormem e passam o dia sobre os escombros da tragédia, "com vistas para o céu", como brinca Chicho, um dos desabrigados que se esforça para reconstruir sua modesta moradia, da qual não sobrou praticamente nada. "Continuo vivendo em minha casa com minha mulher e minhas duas filhas, mas é como começar do zero. Espero poder reconstruí-la em um ou dois meses", explica à Agência Efe Sagrado Cavida, ao mostrar o pequeno terreno onde estavam as paredes da construção. Com um surpreendente bom humor, a maioria dos moradores de favelas continua com suas atividades diárias: as mulheres preparam a comida, as crianças brincam e riem pelas vielas e os homens tentam reconstruir seus lares ou recompor as forças com goles de rum. Muitas dessas pessoas perderam suas casas pela terceira vez em questão de meses, depois da passagem em setembro e outubro de 2009 dos tufões "Parma" e "Ketsana", que tiraram a vida de quase mil pessoas nas Filipinas. "Os tufões destruíram nossas casas, mas pelo menos pudemos salvar alguma coisa. Isto (o incêndio) foi muito pior. Estamos vivendo na rua", comenta Lorenda, de 42 anos, com um sorriso inexplicável. Essa comunidade de Quezon City, da mesma forma que muitas outras em Manila, está situada junto a um córrego poluído por toneladas de lixo que obstruem os sistemas de drenagem e multiplicam os efeitos devastadores das tempestades tropicais que atingem todo ano o país. Segundo cálculos do MMIAC, é necessário realocar 400 mil famílias para limitar os danos causados pelos tufões, uma operação com um custo estimado de 30 bilhões de pesos filipinos (US$ 673 milhões) e que demoraria pelo menos dez anos. No entanto, os realojamentos são poucos, devido sobretudo à reticência dos governantes dos distritos afetados, que defendem melhorar as condições de vida dos moradores de favelas em vez de obrigá-los a se mudarem. "É fato que a terra não pertence a eles, que as casas estão abarrotadas e que a acumulação de resíduos, além de poluir, obstrui os sistemas de drenagem dos leitos de água. Mas seria duro demais para eles terem de se mudar", argumenta Antoni Mamelic, membro da equipe eleitoral de um dos candidatos à Prefeitura de Quezon City. "Queremos ensiná-los a serem mais cuidadosos com o lixo e melhorar sua vida aqui", insiste Mamelic. Ele qualifica de "propaganda negra" as acusações de que os governantes locais permitem a favelização descontrolada para ganhar votos. "O Governo central sempre fala disso, mas não faz nada para melhorar suas vidas", encerra Mamelic. EFE esj/sa-dm

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