Farc completam 45 anos atordoadas com deserções e cerco do Governo

Fernando Muñoz. Bogotá, 27 mai (EFE).- As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) completam 45 anos nesta quarta-feira, mergulhadas numa crise sem precedentes e atordoadas pelos golpes recebidos nos últimos 18 meses, decorrentes da ofensiva militar do Governo e da deserção de inúmeros combatentes.

EFE |

Ainda assim, o Governo do presidente Álvaro Uribe não conseguiu aniquilar este grupo guerrilheiro, o mais antigo da América e que tem em seu poder centenas de sequestrados, graças à sua capacidade de adaptação e resistência.

Os vultosos recursos gastos nos últimos anos para acabar com as Farc e a compra maciça de armas são uma mostra do objetivo principal de Uribe: derrotá-las sem ter que negociar.

O pesquisador do Transnational Institute (TNI) e diretor do centro de estudos Acción Andina na Colômbia, Ricardo Vargas, disse à Agência Efe que, sem dúvida, os rebeldes estão cabisbaixos, já que nunca "ao longo de sua história tiveram uma situação como a vivida nestes últimos anos".

"No entanto, a dimensão dos recursos que foram gastos para aniquilar as Farc, a reengenharia das Forças Armadas e a compra de armamento foram tão grandes que, ao mesmo tempo, a outra parte de dá conta de sua capacidade de resistência", relativizou.

O golpe mais duro recebido pelas Farc desde a sua fundação, em 27 de maio de 1964, foi a morte por infarto, em 26 de março de 2008, do fundador do grupo, Pedro Antonio Marín, conhecido como "Manuel Marulanda Vélez" ou "Tirofijo", a pessoa que liderava e unia a guerrilha.

Os problemas cardíacos de Tirofijo poioraram depois que ele soube que seu genro e segundo homem na hierarquia das Farc, Luis Édgar Devia, conhecido como "Raúl Reyes", havia morrido num bombardeio de militares colombianos a um acampamento guerrilheiro no Equador, em 1º de março do ano passado.

Além disso, um de seus homens de confiança e líder da nova geração do grupo, Manuel Muñoz Ortiz, conhecido como "Ivan Ríos", foi assassinado por seu guarda-costas dias depois da morte de Raúl Reyes.

Esses golpes, somados à deserção de centenas de rebeldes e à morte em combate de vários comandantes, debilitaram a capacidade de ataque das Farc.

No entanto, "resistir a uma estratégia tão intensa e tão grande como a projetada à luz do Plano Colômbia, do Plano Patriota e de tudo o que veio depois mostra que as Farc são uma organização muito forte, posto não foram aniquiladas e continuam tendo seu espaço", disse o doutor em sociologia.

Vargas tem certeza de que a principal fraqueza da guerrilha é a falta de propostas políticas e sua participação no negócio da cocaína.

"Isso os prejudicou demais no que se refere à incidência de elementos do crime organizado em suas práticas", alertou o especialista.

Por sua vez, o diretor da Fundação Segurança e Democracia, Alfredo Rangel, acha que a morte de Raúl Reyes no Equador marcou o ponto a partir do qual as Farc começaram a decair.

Em recente entrevista à Efe, Rangel declarou que a desmobilização de guerrilheiros como Wilson Bueno Largo, conhecido como "Isaza" e que escapou com um refém, e a rendição de Elda Nellys Ávila Moreno, conhecida como "Karina", a primeira mulher a chefiar uma frente das Farc, abriram caminho para outras deserções e desmoralizaram as bases.

A isso se somou, em 2 de julho de 2008, a Operação Xeque-Mate, na qual uma impecável missão do Exército libertou 15 reféns considerados passíveis de troca por guerrilheiros presos, entre eles a franco-colombiana Ingrid Betancourt e três americanos.

Tais golpes levaram os especialistas a calcular que, atualmente, as Farc têm cerca de 8 mil homens com armas, contra quase 20 mil que tiveram em 2002.

Embora as chances de uma negociação de paz sejam distantes, Uribe recentemente propôs à guerrilha um cessar-fogo de quatro meses, passo que antecederia uma conversa com o novo comandante do grupo: Guillermo León Sanz, conhecido como "Alfonso Cano".

Em resposta, os rebeldes disseram que libertariam em breve o cabo do Exército Pablo Emilio Moncayo, sequestrado há mais de 11 anos.

Porém, a proximidade da campanha para as eleições presidenciais de 2010 está dificultando a entrega do refém, porque, segundo o Governo, a senadora Piedad Córdoba, escolhida pela guerrilha como mediadora, tem se dedicado à "propaganda política". EFE fer/sc

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