Fantasma da violência religiosa ressurge na Índia após ataques de Mumbai

Os violentos ataques realizados na cidade indiana de Mumbai por militantes islamitas trouxeram à tona mais uma vez no país o medo de que novos enfrentamentos religiosos entre hindus e muçulmanos se tornem uma constante, em meio à desconfiança mútua entre os dois grupos, que disputam espaço político e religioso.

AFP |

As tensões latentes entre as duas comunidades, que já perduram por décadas, podem se transformar mais uma vez em conflito, tanto em Mumbai quanto em outras regiões da Índia, numa reação aos dois dias e meio de matança - que as autoridades indianas atribuem a extremistas islâmicos do Paquistão.

A maioria dos hindus e muçulmanos deseja viver em paz, destacam analistas, escritores e cidadãos entrevistados em Mumbai.

O escritor muçulmano Javed Anand teme, no entanto, que grupos de ultradireita hindus tentem explorar o envolvimento de islamitas nos atentados da semana passada para ganhar votos nas eleições gerais, que acontecem no início de 2009.

Uma dezena de jovens fortemente armados realizaram uma série de atentados coordenados na noite de quarta-feira, abrindo fogo a esmo e fazendo reféns. Entre seus alvos, dois hotéis de luxo repletos de estrangeiros, um centro judaico, um hospital e uma estação ferroviária.

Um dos mais célebres edifícios históricos da capital econômica da Índia, o hotel Taj Mahal só foi resgatado pelas forças de segurança dois dias e meio após duros combates. O balanço dos ataques, assusta: pelo menos 172 mortos e 300 feridos.

O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, acusou elementos no Paquistão de ter organizado os atentados. Seu vice-ministro do Interior, Shakeel Ahmad, foi ainda mais longe, nesta segunda-feira, afirmando, em entrevista à BBC, que todos os terroristas eram de origem paquistanesa.

O partido nacionalista hindu Bharatiya Janata Party (BJP), principal formação opositora indiana, acusa o governo dirigido pelo Partido do Congresso de ter sido condescendente com o terrorismo.

Javed Anand, que ocupa o cargo de secretário-geral do movimento dos Muçulmanos por uma Democracia Laica, suspeita que o BJP tentará usar os atentados de Mumbai para reforçar o preconceito, já amplamente difundido na comunidade hindu, de que "todos os terroristas são muçulmanos e todos os muçulmanos são aliados do Paquistão".

Baseado em um relatório oficial divulgado no fim de 2006, Anand lembra que os muçulmanos, que representam aproximadamente 13% do 1,1 bilhão de indianos, estão bem atrás da maioria hindu - e mesmo de outras minorias - em matéria de alfabetização, mortalidade infantil e empréstimos bancários.

O chefe de redação do jornal Loksatta, Kumar Ketkar, acredita que "a guerra fria entre as duas comunidades em Mumbai deve se intensificar".

Ketkar explica que as tensões entre os dois grupos remonta à época da divisão da Índia, após a independência, em 1947, levando à criação do Estado islâmico do Paquistão.

A polícia agora investiga o envolvimento de grupos de ultradireita hindus em recentes ataques contra locais muçulmanos, sobretudo mesquitas, provavelmente em represália à série de violentos ataques cometidos contra hindus reivindicados por islamitas.

Ketkar e outros hindus estimam que a mútua desconfiança entre as duas comunidades religiosas deve mesmo ser explorada pela ala direita dos partidos hindus em benefício do BJP.

lod/ap

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