Fantasias do G20

Sou um dos poucos brasileiros dos 500 mil residentes em Londres que preservou, único e exclusivo, o passaporte de meu país natal. Tenho permissão para morar e trabalhar aqui há mais de 25 anos. Assim o fiz. Com empenho e honestidade.

BBC Brasil |

Nesse tempo todo, fui tetra em futebol. Acompanhei espiritualmente as campanhas das "diretas já" e do impeachment do Collor (só que eu chamava de "impugnação de mandato". Frescuras minhas).

Respeito aqueles que fincaram o pé e, esperançosos, aguardaram um dia melhor. Uma república mais decente do que aquela que deixei em 1978. Os que não partiram em busca das ruas pavimentadas de ouro da Europa e da América do Norte tiveram enfim recompensada sua louvável persistência. Presidente popular, gente que não acaba mais atingindo o ambicionado patamar da classe média, telenovelas de fino acabamento, um cinema cada vez mais respeitado no mundo inteiro.

Sim, claro. Tudo tem seu outro lado, seus senões. Desagradável constatar, a cada dia, que o crime prolifera nas ruas e nas favelas. Sabemos, no entanto - ou sabem aqueles que foram de "fico", feito D. Pedro -, que isso é coisa passageira. Sairá na urina. De forma discreta e urbana, frise-se. Daremos um jeito. Somos, afinal, a nona economia mundial, conforme alardeiam há algum tempo. Disso já desconfiava eu, depois de pegar umas caipirinhas seguidas de uma boa picanha num sábado aí em um dos muitos restaurantes brasileiros que continuam proliferando nesta cidade.

Proliferação e economia. Globalização e verdismo. Multiculturalismo. Estes os temas que sacodem o mundo de algumas semanas para cá. Mais ainda o sacudirão neste final de março, começo de abril. Irã, Iraque, Israel, Gaza, Beyoncé, tudo isso fica momentaneamente passado para trás como um marido de anedota diante dos acontecimentos econômico-financeiros que passaram a ser o único assunto digno de nota a assolar mídia e populacho.

O Coringa e Lex Luthor já eram. Os mais recentes vilões são os banqueiros. De pele branca e olhos azuis, como bem observou o presidente Lula, com sua pele branca e seus olhos de ressaca. Feito Capitu, voo para deixar claro. Os banqueiros nigerianos, coitados, limitaram-se a cair no conto das facilidades creditícias ou por aí.

Começaram agora os protestos organizados, ou mesmo bagunçados, no mundo inteiro. Tomo conhecimento, e por eles sou afetado, por aqueles passados em Londres. Grupos bem e mal intencionados, de verdes a anarquistas, ativistas de todos os tons de olhos e matizes de pele, protestam. Protestam mesmo. Mandam brasa. Sábado foi uma lenha.

Quarta-feira, dia dos tolos, ou dos investidores, como passaram a chamá-lo, o G20 estará todão aqui em Londres. Na quinta, 2, reunião formal. Consta que, no decorrer dos protestos, vão botar para quebrar. Mesmo. Como quebradas foram as janelas da mansão de um banqueiro escocês altamente bonificado. Vão mandar brasa. Essa a voz, o brado corrente. A polícia está há semanas se preparando. A última palavra em matéria de cassetete já foi distribuída. Sem falar de outros instrumentos de contenção das massas pouco difundidos, para não perderem o elemento surpresa.

Importante mesmo, e interessante, a meu ver, foi o conselho que as autoridades deram aos banqueiros na semana a passada. É para eles não capricharem na indumentária. Para tentarem dress down, conforme li nos jornais. Foi o que mais me interessou nessa história toda, eu que não entendo nada nem do meu dinheiro, que é pouco, ou dos outros.

Isso é formidável. Sendo apenas remediado, mas dono de rica imaginação, fiquei tentando visualizar um banqueiro às voltas com a discrição bancária nas vestes. Seguramente não é para se cobrirem de trapos e seguirem a pé para a City, bebendo cidra e pedindo a esmolinha "pelamordedeus" ocasional.

Blue-jeans, camisa grife vagabunda no peito e havaianas legítimas nos pés? Não. De jeito nenhum. Consta que sejam cínicos, os banqueiros. Assim também é ir longe demais.

Banqueiro sabe das coisas. Não seriam banqueiros se não soubessem.

A melhor solução para fugir do pau a maior parte deles já descobriu: pegar o jatinho favorito e se mandar para a ilha paradisíaca mais próxima.

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