Famílias muçulmanas ajudaram a salvar judeus na 2ª Guerra Mundial

Mimoza Dhima. Shkodër (Albânia), 23 fev (EFE).- Parece cenário de filme, mas é uma história real, vivida em carne e osso e que poderia ter custado a vida de uma família muçulmana albanesa que, por um ano, na Segunda Guerra Mundial, acolheu uma jovem judia enquanto a casa era ocupada por soldados nazistas.

EFE |

A ajuda que salvou a vida desta judia e dos demais judeus que se refugiaram na Albânia durante o Holocausto se baseou no respeito aos princípios do Islã e em um antigo código na Albânia que considera o hóspede tão sagrado quanto Deus.

A testemunha desta extraordinária história é Vehbi, o filho mais novo de Hassan Hoti, dono de uma casa em Shkodër, norte do país.

Apesar de ter apenas oito anos na época, ele nunca se esqueceu daquele dia, em setembro de 1943, em que três oficiais alemães bateram à porta da casa onde ele vivia com os pais, quatro irmãos, uma irmã, a família do tio do pai e da tia.

"Os nazistas, que tinham ocupado toda a Albânia, disseram a meu pai que morariam em nossa casa", contou Vehbi à Agência Efe.

A partir desse momento, o jardim onde o menino jogava futebol com primos e amigos se transformou em um estacionamento de veículos militares, morteiros e um depósito de enormes caixas de munição.

Em um quarto dormiam altos oficiais nazistas, enquanto no cômodo perto da chaminé havia um suboficial, o corredor foi transformado em enfermaria, e onde eram armazenados os cereais soldados se alojaram, explicou Vehbi, hoje um aposentado de 72 anos.

E, em frente ao quarto dos soldados alemães, no galinheiro, havia sete soldados italianos que tinham sido feito prisioneiros pelos ocupantes alemães.

"Quase ao mesmo tempo em que os alemães chegaram, um sobrinho de Hassan, Abdullah, pediu que acolhêssemos em casa uma judia, Rachel, a quem tinha levado com as três irmãs e os pais de Pristina, Kosovo, para salvá-la da perseguição nazista", continuou Vehbi.

Para piorar o caldeirão de raças, um cozinheiro austríaco operava um fogão no pátio da casa e fazia as vezes de acrobata para entreter o público.

"Meu pai aceitou a judia pensando no Islã, que diz que devemos fazer o bem e ajudar os necessitados para que Deus nos retribua esta bondade", afirmou Vehbi, que, da mesma forma que seus antepassados, vai todos os dias à mesquita rezar.

Além disso, sua família respeitou as velhas tradições albanesas de hospitalidade e o código de honra que obrigava os homens a manter a palavra prometida.

"Meu pai jurou que nunca ia entregar a judia aos alemães, mesmo que tivesse que sacrificar a vida de todos os seus filhos", disse Vehbi, emocionado.

Sob o Islã e o código de honra, dezenas de famílias devotas muçulmanas salvaram mais de dois mil judeus que viviam na Albânia durante a ocupação alemã.

O pequeno país balcânico, habitado predominantemente por muçulmanos, foi o único europeu que, depois da guerra, tinha uma população judaica dez vezes maior que antes dela.

"Rachel, de 19 anos, era uma segunda irmã para mim. Vestia as roupas da minha irmã, Çelja, usava o véu típico muçulmano e me alimentava quando minha mãe não estava", conta Vehbi.

Após a libertação da Albânia, em 1944, os dirigentes comunistas de Enver Hoxha isolaram o país, e a família Hoti não teve notícias de Rachel até a chegada da democracia, em 1991.

Esta família albanesa foi homenageada com o título "Justos entre as Nações" do museu de Yad Vashem, de Jerusalém.

Um retrato de Vehbi e de seu irmão Bahri está exposto ao lado de outras 70 fotos das famílias albanesas que salvaram judeus do nazismo na mostra que o fotógrafo americano Norman Gershman inaugurou recentemente em Tirana.

A única coisa que Vehbi pede a Israel em retribuição ao sacrifício da família é que pague uma viagem de peregrinação a Meca, o máximo santuário do Islã que lhe inspirou a vida.

Ele afirma que a religião deve unir as pessoas, e não entende como soldados israelenses, descendentes das vítimas do anti-semitismo, possam cometer agora o mesmo crime que Hitler e matar crianças palestinas inocentes simplesmente por ser muçulmanas.

EFE md/db

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