Familiares de vítimas da ditadura exigem abertura de arquivos

Brasília, 23 jun (EFE).- Familiares de vítimas da repressão durante a ditadura militar pediram hoje a localização e divulgação de todos os arquivos da época, depois que um oficial admitiu o fuzilamento de 41 guerrilheiros.

EFE |

"Ficou claro que existem arquivos secretos e, se isso for verdade, eles devem ser localizados pelas autoridades", disse um porta-voz da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada à Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, à Agência Efe.

A versão oficial das Forças Armadas afirma que tudo o que estava em seus arquivos já foi publicado e que os supostos documentos secretos não existem ou foram queimados na época da ditadura.

No entanto, os movimentos de direitos humanos afirmam que há "arquivos secretos" guardados nos próprios quartéis ou com oficiais que atuaram na repressão.

O fato foi confirmado na semana passada, quando o jornal "O Estado de São Paulo" revelou um documento em poder do major Sebastião Curió Rodrigues de Moura, que dirigiu parte das operações contra a Guerrilha do Araguaia e que admitiu que pelo menos 41 combatentes foram capturados vivos, torturados e executados.

A revelação do militar foi publicada dias depois que o Governo anunciou as primeiras 44 indenizações para camponeses da região do Araguaia, que sofreram torturas e perseguições por seus supostos envolvimentos com a guerrilha, que operou entre 1971 e 1975.

Micheas Gomes de Almeida, conhecido como Zezinho do Araguaia e um dos oito sobreviventes da guerrilha, disse à Efe que as declarações do major Curió também "deveriam ajudar" a descobrir a localização dos restos mortais de 58 guerrilheiros que nunca foram encontrados.

Zezinho do Araguaia lembrou que esses 58 combatentes, segundo diferentes testemunhos e denúncias, foram, em sua maioria, capturados com vida, torturados, fuzilados e depois enterrados no meio da selva, em lugares jamais revelados.

A localização desses corpos é responsabilidade do Ministério da Defesa, apesar de os parentes das vítimas se oporem ao fato de que "os próprios militares busquem o que jamais quiseram dizer onde está", acrescentou o ex-guerrilheiro.

Os movimentos de direitos humanos criticaram que a comissão encarregada da busca seja formada por militares e tenha ignorado tanto os camponeses de Araguaia, que disseram ter alguma informação, quanto os familiares de vítimas.

Em resposta à polêmica, o Ministério da Defesa emitiu na noite desta segunda-feira, uma nota oficial, na qual afirma estar fazendo "os esforços necessários para garantir o direito à memória" e diz que a busca dos corpos foi encarregada ao ministério pela Justiça.

A nota lembra que outras 13 comissões de busca dos corpos já foram organizadas, nas quais foram localizados restos mortais de 13 pessoas.

Destas pessoas, somente a guerrilheira Maria Lúcia Petit foi identificada. Não se sabe se os outros corpos eram de combatentes.

EFE ed/pd

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