Família de soldado sequestrado teme linha dura de novo governo de Israel

A família do soldado israelense Gilad Shalit, sequestrado por militantes palestinos, teme que o novo governo no país adote uma linha mais dura que torne ainda mais difícil a libertação do militar e ampliou a pressão sobre o governo atual, do primeiro-ministro Ehud Olmert.

BBC Brasil |

Shalit, de 23 anos, foi capturado em junho de 2006, e o grupo palestino Hamas exige a libertação de cerca de 1,2 mil prisioneiros sob custódia israelense em troca do soldado.

Os pais de Shalit se mudaram no último domingo para uma barraca erguida em frente à residência do premiê, em Jerusalém, para mobilizar a opinião pública e cobrar uma atitude por parte de Olmert, que deve deixar o poder neste mês.

De acordo com Noam Shalit, se seu filho não for solto durante a gestão de Olmert, com a formação do novo governo "a luta deverá começar de novo, da estaca zero".

"Olmert é responsável pela libertação do meu filho, pois ele foi capturado durante sua gestão", disse Noam Shalit à BBC Brasil.

"Esperamos que o primeiro-ministro tome a decisão certa e liberte Gilad nos próximos dias, e viemos morar nesta barraca para lembrá-lo todos os dias e todos os momentos que Gilad ainda está vivo e ainda está no cativeiro na Faixa de Gaza."

A barraca dos pais de Shalit está coberta por cartazes com a palavra "Socorro", escrita com letras de mão do próprio soldado, e milhares de pessoas já visitaram a barraca em solidariedade à família.


Políticos que devem compor o gabinete de governo do futuro premiê Benjamin Netanyahu já deram sinais de que a libertação do soldado no novo governo pode de fato ser mais difícil.

Moshe Yaalon, que deverá ser o próximo ministro da Defesa, já afirmou que é contra pagar "qualquer preço" para libertar o soldado e que vai recomendar que o próximo governo não aceite as exigências do Hamas.

Avigdor Lieberman, provavelmente o próximo ministro das Relações Exteriores e líder do partido ultradireitista Israel Beiteinu, também já se manifestou contra a troca de prisioneiros.

"Soldados devem ser libertados, mas não em troca de prisioneiros", disse Lieberman, que representa o segundo maior partido da coalizão de Netanyahu. Ele afirmou que prefere uma ação militar para libertar o soldado.

O analista para assuntos palestinos do jornal Haaretz, Amos Harel, manifestou um profundo pessimismo quanto às chances de Shalit seja libertado em breve.

"É triste admitir, mas parece que Gilad Shalit não vai voltar para casa, nem no milésimo dia de cativeiro (segundo a contagem, nesta quarta-feira ele completou 990 dias desde que foi capturado), e nem muitos dias depois disso", afirmou Harel em artigo no jornal.

O drama da família Shalit divide a sociedade israelense entre aqueles que acham que o governo deve aceitar as exigências do Hamas e os que consideram que "não se deve pagar qualquer preço" pela libertação do soldado.

Na lista de prisioneiros que o Hamas quer que sejam libertados em troca do israelense constam cerca de 450 prisioneiros considerados "pesados", pois estiveram diretamente envolvidos na morte de centenas de civis israelenses, em atentados suicidas cometidos pelo grupo.

As exigências do Hamas também incluem a libertação de centenas de mulheres e menores palestinos detidos nas prisões de Israel e dezenas de parlamentares do grupo que foram presos pelo Exército israelense.

A libertação dos prisioneiros "pesados" gera dilemas de forte caráter emocional, envolvendo um conflito entre o ódio que muitos israelenses sentem pelo Hamas e a empatia com a família Shalit. O dilema divide inclusive as famílias que perderam seus filhos, irmãos ou parentes.

Yossi Mendelevich, que perdeu seu filho Yuval, de 13 anos, em um atentado suicida em um ônibus em 2003, afirma que "é contra libertar assassinos, pois eles voltarão a praticar atos de carnificina contra os judeus".

Já Efrat Avraham Livne, cujo irmão, o soldado Beni Avraham, foi capturado e morto pelo Hezbollah no Líbano em outubro de 2000, disse à BBC Brasil que "se eu pudesse, libertaria os assassinos do meu irmão em troca de Gilad".

"Salvar os vivos é mais importante do que ficar cultivando o ressentimento contra os responsáveis pelos mortos", disse Efrat, que visitou a barraca em solidariedade à família Shalit.

"O problema é que aqui em Israel muitas vezes se dá mais importância aos mortos do que aos vivos."


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