Família de Jango apresenta novas provas de assassinato do ex-líder

Omar Lugo. Rio de Janeiro, 30 jan (EFE).- A família do ex-presidente João Goulart apresentou hoje à Promotoria de Porto Alegre novas provas de que ele era vigiado pelas ditaduras de Uruguai e Brasil.

EFE |

Além disso, os parentes de Jango afirmam que os documentos reforçam a tese de que houve uma conspiração da CIA (agência central de inteligência americana) e dos militares para assassinar o ex-presidente.

João Goulart foi derrubado por um golpe de Estado em 1964 e morreu em circunstâncias consideradas estranhas em um hotel em Mercedes, Argentina, em dezembro de 1976.

A família afirma que a morte -nunca esclarecida oficialmente- foi planejada por um "sindicato do crime" precursor da Operação Condor e com o patrocínio financeiro da CIA, do Governo americano e com conhecimento do então presidente do Brasil, o general Ernesto Geisel.

Desta vez, os Goulart entregaram à Promotoria de Porto Alegre documentos revelados pelo Governo uruguaio, provenientes do Serviço de Informação e Defesa (SID) que provam que Jango era estreitamente vigiado na fazenda de El Milagro, em Maldonado, Uruguai.

Entre os arquivos uruguaios, comprova-se que até a cozinheira da família, Margarita Suárez, era do serviço secreto do Brasil, disse João Vicente Goulart, filho do ex-presidente, em entrevista à Agência Efe.

"Reforça-se mais uma vez a evidência de que havia uma monitoração permanente do Uruguai e o tipo de cumplicidade entre os dois países", afirmou o filho do ex-presidente.

Os documentos uruguaios também provam que Jango já não tinha status de asilado político nem a proteção formal do Estado uruguaio quando morreu oficialmente de ataque cardíaco.

A família já tinha recebido do Governo brasileiro fotos tiradas por agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI), a agência de espionagem da ditadura, nas quais Goulart aparece em atividades cotidianas.

Há mais de um ano, a família tenta que o Ministério Público inicie um processo perante a justiça brasileira para investigar o suposto envenenamento, que foi revelado por um ex-agente do serviço secreto uruguaio, preso desde 2003 na prisão de Charquedas, do Porto Alegre, por tráfico de armas.

O ex-agente Mário Neira Barreiro, hoje com 54 anos, afirma que Goulart foi envenenado com pílulas adulteradas na "Operação Escorpião", coordenada por Uruguai, Brasil e Estados Unidos em uma época de fervor anticomunista.

As afirmações de Barreiro foram ratificadas em um interrogatório perante a Polícia Federal do dia 29 de janeiro de 2008.

"Foi decidido que a morte de Jango seria feita pelo serviço secreto uruguaio através da substituição de medicamentos de efeito antagônico, levando em conta que Jango tinha um histórico de problemas cardíacos", segundo o texto das declarações de Barreiro, obtido pela Efe.

Segundo o réu, o líder da operação era o comissário Sérgio Fernando Paranhos Fleury, um chefe do Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), que morreu aos 46 anos, em 1979, e é apontado como um dos principais torturadores do regime militar.

"A justiça brasileira não atuou porque o Ministério Público não fez nada", afirmou o filho de Jango.

O Instituto Presidente João Goulart, criado pela família para o resgate da memória histórica do ex-presidente, tenta ressuscitar o caso e a tese de assassinato, que foi investigada pelo Congresso no início desta década, mas sem chegar a qualquer conclusão.

"Quando a tese começou a ser levantada, ninguém queria assumir tal possibilidade. Era um enorme problema, um presidente legalista, com 80% de aceitação, assassinado na Argentina, por uma operação conjunta de três países com supervisão da CIA... quem ia querer tocar nisso?", disse o advogado da família, Daniel Renout da Acunha.

A família também prepara uma solicitação ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que envie uma "carta rogatória" à Suprema Corte dos Estados Unidos para que escute o ex-agente da CIA Frederick Latrash, apontado por Neira Barreiro como um dos sobreviventes da época. EFE ol/db

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