Falta de vontade política impediu reunião para concluir Rodada de Doha

Marta Hurtado Genebra, 12 dez (EFE).- A falta de vontade política impediu uma reunião ministerial que poderia ter levado à conclusão da Rodada de Doha este ano e com isso ter dado um bom sinal aos mercados em um contexto de crise financeira internacional.

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Essa é a explicação que o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, deu hoje para explicar o porquê decidiu não convocar os ministros para um encontro em Genebra em dezembro.

"Não houve vontade suficiente, interesse suficiente para um compromisso político", afirmou em entrevista coletiva Lamy, após assumir perante os chefes de delegação dos 153 países que formam a OMC que não haveria reunião.

Lamy passou duas semanas em intensas consultas ao mais alto nível tentando conseguir o consenso, mas não o conseguiu, e por isso tomou a decisão de não convocar, colocando na balança o risco que implicava reunir de novo os ministros e concluir com outro fracasso como o que aconteceu em julho, após uma reunião-maratona de 11 dias.

"Chamar os ministros teria sido um risco alto demais, um risco inaceitável que poderia prejudicar não só a rodada mas o próprio sistema da OMC", disse aos membros.

O que Lamy não afirmou é que uma reunião fracassada também poderia implicar no objetivo oposto de convocá-la: dar um sinal muito negativo em um contexto de crise generalizada.

No entanto, Lamy o tentou incansavelmente porque como ele mesmo afirmou, sentia a pressão da solicitação feita pelo G20 (os países mais ricos e os emergentes) de conseguir um acordo este ano como mostra de unidade e de entendimento intergovernamental.

"De fato a pressão funcionou, e em muitas áreas avançamos", confessou.

Lamy lamentou que a conclusão da rodada este ano "teria mandado um excelente sinal aos mercados", e enumerou os riscos que ajuda não fazê-lo.

"Veremos um aumento do protecionismo e um declive dos intercâmbios comerciais, algo que vai prejudicar especialmente os países em desenvolvimento".

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, lamentou hoje, antes inclusive de saber que não haveria reunião ministerial, que a não-conclusão da rodada elevará o protecionismo um pouco, na sua opinião, muito pernicioso para os países pobres.

"O acordo estava perto e teria sido uma excelente ferramenta para superar a crise financeira. Peço para que as negociações concluam o mais rápido possível, não se pode insistir sempre nos temas nacionais", assevero Ban.

O secretário-geral se referia ao fato de que a não-convocação da reunião se deve a dois temas essenciais, os chamados setoriais e o mecanismo de salvaguarda.

Os EUA tentaram, em vão, convencer China, Índia e Brasil que aceitassem os setoriais, a liberalização total - reduzir a zero as tarifas - de, pelo menos, dois setores industriais como parte da flexibilidade no acordo global.

Uma opção totalmente descartada pelos emergentes que lembraram várias vezes que esta possibilidade deve ser voluntária, como estabelece as bases do acordo.

O mecanismo de salvaguardas permitiria um aumento de tarifas agrícolas nos países pobres, em caso de um aumento repentino das importações ou de um rebaixamento abrupto dos preços, e foi o assunto que fez fracassar a reunião ministerial do julho passado.

Os países não conseguiram entrar em acordo sobre os termos para iniciar o mecanismo e como e quanto deveria durar.

Com relação ao terceiro tema que Lamy tinha assinalado como difícil, a redução dos subsídios ao algodão, o diretor-geral disse que estava "técnica e politicamente resolvido".

As negociações da Rodada de Doha têm como objetivo liberalizar o comércio mundial mediante o corte das tarifas e da redução dos subsídios à agricultura. EFE mh/ma

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