Falta de recursos facilitou captura de Ratko Mladic

Segundo jornal sérvio, ex-comandante ficou sem dinheiro para pagar salários de seguranças e possuía poucos ajudantes

iG São Paulo |

A falta de recursos para financiar a longa fuga do acusado de crimes de guerra servo-bósnio Ratko Mladic foi um fator crucial para sua captura na quinta-feira passada, afirmou nesta segunda-feira a imprensa sérvia. Além disso, ressaltaram autoridades, o ex-comandante do Exército servo-bósnio conseguiu se esconder durante anos porque contava com poucos ajudantes.

AP
Foto fornecida pelo jornal Politika do ex-comandante do Exército servo-bósnio Ratko Mladic, que foi preso em 26/05/2011

Segundo o jornal sérvio Blic, nos últimos três anos o ex-comandante ficou sem dinheiro para pagar os salários de seus seguranças, o que contribuiu para que fosse pego. "O dinheiro não foi a única razão. Mladic compreendeu que já não podia confiar plenamente em nenhum de seus homens. Com eles, estava o tempo todo em perigo", revelou uma fonte próxima a Mladic.

De acordo com a mesma fonte, sem dinheiro, Mladic pensou que estaria mais seguro só e, assim, ninguém saberia onde ele se encontrava. "Houve informações segundo as quais em certo momento ele havia fugido do país, mas é muito provável que se escondesse no entorno, porque a Sérvia continuava sendo o centro de logística de sua fuga. De lá provinham o dinheiro e seus ajudantes", revelou a fonte ao Blic.

Nos últimos dois anos, calcula-se que mais de 100 pessoas ligadas ao ex-general tenham sido interrogadas pelos serviços secretos. Além disso, foram cortadas possíveis fontes de financiamento após o registro de várias empresas que supostamente o ajudavam a se esconder da Justiça.

Na sexta-feira, o presidente sérvio, Boris Tadic , disse que a investigação sobre Mladic será estendida a todos aqueles que podem tê-lo ajudado a escapar da prisão, inclusive oficiais e membros da polícia e Forças Armadas sérvias.

Até junho de 2002, Mladic se escondeu em três instalações militares no oeste da Sérvia, de onde foi levado a um apartamento em Belgrado no qual permaneceu até o fim de 2005, explicou. A partir de 2006, Mladic esteve em três localidades nos arredores de Belgrado, até ser preso na quinta-feira em uma aldeia no nordeste da Sérvia, onde vivia na casa de um primo.

No interrogatório após sua captura, Mladic se negou a revelar onde se escondia e quem o ajudava.

O presidente do conselho nacional de cooperação com o Tribunal Criminal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII), Rasim Ljajic, negou nesta segunda-feira qualquer possibilidade de que as autoridades soubessem há muito tempo o local onde Mladic se encontrava, e que tenham escolhido este momento para capturá-lo com o objetivo de fazer com que a União Europeia conceda à Sérvia o status de país candidato à adesão do fim do ano.

"Nós o prendemos quando conseguimos, quando chegamos a ele e quando tínhamos certeza de que a pista que seguíamos era válida e relevante", afirmou Ljajic.

Apelação

Também nesta segunda-feira, a defesa do ex-comandante do Exército servo-bósnio apelou da decisão do tribunal sérvio para crimes de guerra de autorizar a transferência de seu cliente para Haia.

"Enviei a apelação há dez ou quinze minutos de um posto dos correios de Belgrado", declarou o advogado de Mladic Milos Saljic. Segundo ele, a apelação será analisada na terça-feira pelo tribunal, que não deve recebê-la antes.

O recurso de apelação será examinado por um painel de três juízes que se pronunciará em um prazo máximo de três dias. Se a apelação for rejeitada, o Ministério da Justiça sérvio assinará a ordem de transferência de Ratko Mladic para Haia.

O recurso, que é visto como uma forma de conseguir mais tempo para Mladic, é utilizado, segundo o advogado, pelo fato de o ex-comandante estar muito doente para ser extraditado.

Apesar de uma decisão da Justiça em Belgrado, de que Mladic está saudável o bastante para ser entregue ao tribunal da ONU , Saljic afirmou que pedirá outro exame médico independente e acrescentou que a saúde de seu cliente piorou desde sua prisão. "Não acho que o julgamento acontecerá. Ele não viverá até o começo do julgamento", afirmou.

A família de Mladic também afirma que ele está doente demais para viajar. No entanto, o governo sérvio deve rejeitar o recurso.

Tática

O Ministério da Justiça sérvio poderá precisar de até três dias para tomar alguma decisão a respeito do recurso contra a extradição de Mladic. O recurso, no entanto, deve ser rejeitado antes desse prazo, pois o vice-promotor para crimes de guerra já afirmou que a alegação de problemas de saúde é uma tática para atrasar o processo.

"Minha impressão é de que ele está representando de uma forma muito bem preparada", afirmou o promotor Bruno Vekaric. "No que diz respeito ao estado mental dele, pode acreditar, ele parece mais normal do que muitos outros."

Vekaric também rejeitou informações da imprensa de que o general Mladic teria problemas de audição e que seu braço direito estaria paralisado. O tribunal em Haia informou que não divulgará o dia da chegada de Mladic depois de sua extradição, mas, segundo Mark Lowen, a especulação é de que ele seja enviado à Holanda em um voo noturno, sem divulgação de horários.

De acordo com Mark Lowen, o governo da Sérvia espera que a extradição de Mladic acabe com as manifestações de apoio ao ex-comandante do Exército servo-bósnio. No domingo, cerca de 7 mil pessoas foram às ruas de Belgrado em uma manifestação contra a prisão e possível extradição de Mladic e contra o presidente sérvio, Boris Tadic.

Ao final da manifestação, ocorreram choques com a polícia, que disse ter prendido 180 manifestantes . Os confrontos deixaram mais de 30 feridos.

Importância

Mladic, que era um dos acusados de crimes de guerra mais procurados do mundo, foi capturado na quinta-feira, após viver foragido por 16 anos. A prisão de Mladic era considerada fundamental para as chances da Sérvia ingressar na União Europeia .

Também no domingo, o filho de Mladic, Darko Mladic, disse que seu pai nega ter ordenado o massacre de Srebrenica , em 1995, no qual até 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos. O massacre, durante a Guerra da Bósnia, foi a maior atrocidade cometida em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial.

*Com EFE, AFP e BBC

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