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Falta de ação de BCs prejudica controle da inflação no Brasil

A falta de ação dos Bancos Centrais de outros países no combate à inflação obriga o Brasil a aumentar os juros de forma mais drástica do que seria necessário se houvesse uma articulação internacional para conter as elevações de preços no mundo, dizem especialistas ouvidos pela BBC Brasil. Quanto menos os BCs subirem suas taxas de juros, mais vamos ter que subir no Brasil, afirma o economista Ricardo Amorim, chefe da área de análise econômica para América Latina do banco West LB.

BBC Brasil |

"O BC fez as coisas certas, mas não contou com a ajuda de fora."
"Se eles apertassem mais, daria para apertar menos aqui", concorda Alcides Leite, professor de mercado financeiro da Trevisan Escola de Negócios.

A lógica do argumento dos dois economistas é que assim como o BC brasileiro tem elevado os juros para desaquecer a economia nacional, só uma ação coordenada dos principais BCs nesse sentido provocaria uma redução da atividade econômica global, e portanto, uma menor elevação dos preços das commodities no mercado internacional.

"O Brasil não controla a demanda na Ásia, mas o aumento da demanda lá faz com que parte da oferta aqui seja exportada e a oferta local caia", diz Amorim.

Na semana passada o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em entrevista ao jornal Financial Times, fez um apelo a outros bancos centrais para que se unam no controle da alta dos preços.

"Se cada dirigente de BC decidir que esse é um problema de outros países, ninguém fará nada e haverá uma inflação em todo o mundo", disse Meirelles.

Presidentes de BCs se reuniram nesta quinta-feira em Lausanne, na Suíça, numa conferência do Bank for International Settlements (BIS), o BC dos BCs, para discutir desafios na política monetária da próxima década.

'Efeito incerto'
O economista José Ricardo Fucidji, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), questiona a eficácia do corte de juros num contexto de inflação gerado pelo aumento "estrutural" da demanda.

"O impacto do aumento de juros é desconhecido, espera-se que a contenção da demanda contenha a inflação, mas esse efeito é muito incerto."
"Se ataco o efeito e a causa real é a especulação de commodities e a falta de oferta, o efeito é incerto. O remédio deve ser uma combinação prudente entre taxa de juros e expansão da oferta."
Para Fucidji, um corte de juros generalizado poderia provocar um desaquecimento excessivo da economia mundial. "Remédio na dose errada é veneno."
O economista Eduardo Strachman, colega de Fucidji na Unesp, concorda e diz que o Brasil deve tomar o cenário internacional como dado já que China e Índia, países importantes nessa dinâmica inflacionária, não compartilham da "obsessão" brasileira com a inflação.

"Se Estados Unidos e Europa não conseguiram fazer pressão sobre a China, comos nós vamos fazer? A postura deles é 'não vamos comer nem 0,5% de crescimento por causa da inflação'. Eles não mudam a política de câmbio e juros, isso não está em questão. Esses juros exóticos são coisa do Brasil."
Leite, da Trevisan, concorda que não só a China, como a Rússia e a Índia, querem "crescer a qualquer custo" e, portanto, admitem crescimento com inflação.

Grandes consumidores de commodities, como Estados Unidos, China e Índia, têm grande influência na formação dos preços desses produtos, explica Leite. Ao não apertar os cintos dentro de casa, eles mantêm uma demanda alta, que pressiona os preços.

Outra forma de impacto citada por Leite decorre da diferença nas taxas de juros, quando apenas alguns BCs utilizam esse instrumento no combate à inflação.

"O efeito secundário é que, com juros muito baixos lá fora e muito altos aqui, vamos atrair muito capital especulativo, o que pode levar a uma depreciação da moeda e prejudicar as exportações."

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