Ex-talibã convertido à causa democrática disputa eleições afegãs

Diego A. Agúndez.

EFE |

Cabul, 16 ago (EFE).- O candidato presidencial Abdul Salam Rocketi, ex-comandante talibã convertido à causa da democracia afegã, destaca-se entre os 40 adversários de Hamid Karzai nas próximas eleições e pede aos insurgentes para "deixar o deserto" e seguir seu exemplo.

Batizado de Rocketi por sua habilidade em manipular os projéteis em seus tempos de mujahedin contra a ocupação soviética, Abdul Salam gesticula com seriedade diante de centenas de homens barbados -a maioria, pashtuns- que vieram do sul e do leste do Afeganistão para escutá-lo.

O ex-comandante ocupou um alto cargo do Exército talibã durante os anos de Governo fundamentalista, mas na queda do regime entregou suas armas e se converteu à causa democrática após nove meses na prisão, já com as tropas estrangeiras no país.

"Não contei quantos foguetes lancei em minha vida", ironiza Rocketi em entrevista à Agência Efe, pouco depois de fazer um comício na capital, Cabul. "Mas no Afeganistão já é tempo de paz. É preciso negociar com os talibãs", defendeu.

Após lutar contra os soviéticos, se alistar nos talibãs e fazer parte do Parlamento afegão, o ex-comandante analisa atualmente suas possibilidades como candidato à Presidência do Afeganistão nas eleições de 20 de agosto.

O público que o ouviu, formado por centenas de homens com turbantes, de barbas compridas, e seis mulheres de burca, lança gritos de "Deus é grande" em apoio às promessas do ex-comandante talibã: justiça islâmica, paz, tolerância zero à corrupção, segurança e trabalho.

Rocketi ouve sentado os discursos inflamados de líderes tribais, os poemas de interlúdio, uma carta aberta de uma criança e versos cantados sem acompanhamento de instrumentos, segundo uma tradição musical ainda empregada pelos próprios talibãs.

Os seguidores do candidato representam a parte do Afeganistão que se recusa a adotar influências estrangeiras e se apega às tradições dos pashtuns -a principal etnia do país-, baseadas na lealdade à tribo e em uma leitura do Islã muito conservadora.

Durante o ato são ouvidos gritos em favor deste antigo talibã, que, como diz um estudante no palanque, "nem aceita os costumes dos estrangeiros nem muda de roupa só porque há americanos no Afeganistão".

"São os estrangeiros que não deixam que progridamos. Países como Rússia, Irã e Paquistão não permitem o desenvolvimento afegão.

Devemos fortalecer nossas forças de segurança para que as tropas estrangeiras saiam daqui", disse o candidato à Efe.

Embora, segundo analistas, as possibilidades de Rocketi vencer sejam quase nulas -segundo pesquisa recente, é um dos candidatos menos populares -, sua importância reside no exemplo que pode servir para os talibãs que ainda combatem no país.

O próprio presidente afegão e favorito no pleito, Hamid Karzai, fez, como promessa de destaque, embora sem sucesso, uma oferta de negociação para os talibãs moderados que deixem as armas e entrem no processo democrático.

"Se Karzai negociar será seu maior êxito. Assim a guerra acabará", afirmou à Efe entre o público o antigo mujahedin Mohammed Nader, que veio da província de Kunduz, no norte.

Ele acredita que o Governo não deu satisfação aos "jihadistas".

A conversão democrática do ex-comandante, porém, não agradou a seus antigos aliados fundamentalistas, que nesta campanha atacaram duas vezes seus atos e mataram um de seus colaboradores, após pedir à população para boicotar as eleições.

"São atos errôneos", afirma irritado o ex-comandante insurgente enquanto alisa a barba. "Os talibãs do Afeganistão devem respeitar o processo democrático e votar em seus candidatos. O povo do Afeganistão quer a paz e a estabilidade".

Rocketi diz ter gastado na campanha até o último centavo que ganhou na venda de sua casa, US$ 82 mil, mas assegura que valerá a pena se o dinheiro ajudar o Afeganistão a voltar à trilha do desenvolvimento.

E seus seguidores, entre orações, rezam pelo "êxito do corajoso Rocketi", esse polêmico e ex-comandante talibã de Jalalabad que agora defende que os "insurgentes deixem o deserto" e comecem a andar na mesma direção que os demais afegãos. EFE daa/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG