Ex-relator da ONU pede endurecimento com Mianmar

O ex-relator especial da ONU para Mianmar, Paulo Sérgio Pinheiro, disse em entrevista à BBC Brasil que a comunidade internacional não está mostrando competência para conseguir a libertação da líder opositora do país, Aung San Suu Kyi. Acho que é muito importante que as democracias da Europa enviem uma mensagem clara, por exemplo, chamando seus embaixadores, disse.

BBC Brasil |

Segundo o diplomata brasileiro, falta coordenação por parte dos países mais influentes.

"O problema é que há uma grande desunião entre as potências. E há o problema do veto da China e da Rússia (no Conselho de Segurança da ONU)", afirmou.

Aung San Suu Kyi foi condenada nesta terça-feira a 18 meses de prisão domiciliar, em uma decisão que gerou protestos da comunidade internacional e fez com que a União Europeia prometesse reforçar as sanções já existentes contra o país asiático, que é governado por uma junta militar desde 1962.

A ativista, que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1991, passou 14 dos últimos 20 anos detida.

"Aung San Suu Kyi é uma líder política e espiritual. Ela tem uma força tremenda", disse Pinheiro. "Acho que a energia dela deveria inspirar as principais potências democráticas do mundo a ser mais eficientes."
China
Segundo Pinheiro, é necessário construir um consenso e obter a colaboração da China, vizinho e principal parceiro de Mianmar.

"A comunidade internacional deve trabalhar com a China. Minha impressão é de que a China está um pouco cansada da ditadura em Mianmar. No meu mandato (em Mianmar), tive várias experiências positivas de diálogo e até de cooperação por parte da China", disse.

"É preciso ver de que maneiras podemos conseguir essa cooperação com a China para algum tipo de abertura no país", afirmou.

"Sem coordenação será muito difícil obter algo próximo a uma transição para a democracia."
Escândalo
Apesar de afirmar que a condenação de Suu Kyi já era esperada, Pinheiro classificou a decisão como um escândalo.

"E é um escândalo ainda maior porque o secretário-geral da ONU (Ban Ki-moon) acabou de visitar o país (no mês passado)", disse.

Suu Kyi foi condenada por um tribunal de Yangun por ter violado as regras da prisão domiciliar, ao permitir que um americano, John Yettaw, entrasse em sua casa em maio passado.

Yettaw, que sofre de epilepsia e transtorno de estresse pós-traumático, ultrapassou os guardas, atravessou a nado o lago em frente à casa de Suu Kyi e passou duas noites em sua residência, violando os termos de sua prisão domiciliar. Ele foi condenado a sete anos de prisão, quatro deles de trabalhos forçados.

Segundo Pinheiro, o julgamento foi uma fabricação para o mundo, realizado "sem nenhuma garantia do cumprimento da lei" e com o objetivo de manter a líder opositora afastada das eleições marcadas para o próximo ano.

A sentença de prisão domiciliar anterior de Suu Kyi expirou em 27 de maio. A nova condenação fará com que ela ainda esteja detida durante as eleições. O partido da ativista, a Liga Nacional pela Democracia, venceu a última eleição no país, em 1990, mas nunca conseguiu assumir o poder.

Críticas
"(O governo de Mianmar) espera conseguir alguma legitimidade organizando eleições", disse. "A comunidade internacional deve enviar uma mensagem muito clara. Não há mais roteiro para a democracia. O que estamos vendo é a consolidação de um roteiro para dominação autoritária."
Pinheiro criticou a postura de alguns países europeus, que mantêm empresas em operação em Mianmar. "Que políticas verdadeiras você pode ter se você tem essa duplicidade?"
Para o diplomata, as sanções econômicas mantidas pelos Estados Unidos há quase 20 anos também não têm "nenhum efeito".

"Eu não sou um grande entusiasta de sanções. Eu acredito mais na diplomacia", disse.

Segundo Pinheiro, é preciso encontrar elos de ligação com os generais que governam Mianmar, como na luta contra a Aids, contra o narcotráfico e na cooperação na área de saúde.

No entanto, Pinheiro afirma que Mianmar não é uma prioridade para a comunidade internacional.

"Na verdade, não é prioridade. Quando você tem o Afeganistão, o Iraque, a Coreia do Norte, (Mianmar) não é prioridade."

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