Bogotá, 27 out (EFE) - O ex-congressista colombiano Óscar Tulio Lizcano, que fugiu das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) após mais de oito anos em poder da guerrilha, voltou hoje a elogiar o guerrilheiro Isaza, que o ajudou a fugir, ao dizer que ele teve um gesto humanitário.

Lizcano também qualificou de "loucura" qualquer tentativa de resgate militar de seqüestrados pela guerrilha.

O ex-refém das Farc fez estas declarações à "Caracol Radio" da clínica na cidade de Cali, no sudoeste da Colômbia, onde está internado desde domingo, quando encontrou tropas do Exército após andar durante três dias.

Os militares o encontraram, junto a seu carcereiro, nas selvas de San José del Palmar, no departamento de Chocó, no noroeste do país, onde Lizcano esteve seqüestrado desde agosto de 2000.

O ex-refém disse hoje que não tem "a menor dúvida" de que os rebeldes fuzilarão os seqüestrados, caso tentem um resgate militar.

"Eles me advertiam permanentemente" de que "não iam me entregar vivo", acrescentou Lizcano, que era deputado pelo Partido Conservador quando foi seqüestrado pelas Farc.

Ele se referiu, assim, a um dos maiores temores dos seqüestrados: morrer durante a operação de resgate.

Foi o que ocorreu com dez reféns em maio de 2003, entre eles o ex-governador de Antioquia, Guillermo Gaviria, e seu assessor de paz, o ex-ministro da Defesa Gilberto Echeverri, depois que ficaram um ano seqüestrados.

Gaviria e Echeverri foram assassinados junto a oito integrantes da Polícia em represália a uma operação militar.

Em resposta, o chefe do Exército, o general Mario Montoya, esclareceu hoje que, no caso de Lizcano, não se buscou um resgate, apesar do cerco militar que há meses perseguia os guerrilheiros que o vigiavam.

"Podíamos apertar, mas não podíamos enforcar", disse Montoya também à "Caracol Radio", ao assegurar que o resgate militar estava "descartado".

O resgate é uma das três opções que o Executivo do presidente Álvaro Uribe defende para o caso dos seqüestrados pelas Farc.

As outras são a libertação de seqüestrados sem condições por parte da guerrilha e a deserção de integrantes das Farc com reféns, que foi o caso de Wilson Bueno Largo, conhecido como Isaza, o chefe da comissão insurgente que custodiava Lizcano e fugiu com ele na última quinta-feira.

Foi "um gesto humanitário", e ele demonstrou compaixão, declarou o ex-legislador sobre seu antigo carcereiro.

"Ele tomou a decisão e me disse: 'velho, eu vou lhe tirar, porque o senhor vai morrer aqui'", detalhou Lizcano ao relatar os momentos anteriores à fuga.

Lizcano recuperou a liberdade aos 62 anos, após mais de oito anos de cativeiro, onde sofreu de malária e leishmaniose, entre outras doenças.

O primeiro boletim médico emitido na clínica onde ele está internado informa que o ex-congressista sofre de desnutrição, anemia, infecção por parasitas, desidratação, infecção urinária, dificuldades para respirar e inflamação dos pés.

Lizcano apareceu em público no domingo com um aspecto abatido, cabelos compridos e espessa barba branca, com roupa velha e suja, uma imagem que comoveu a Colômbia e o mundo.

Depois, Isaza também apareceu perante a imprensa com seu olho esquerdo vendado, porque o perdeu há cinco anos em um enfrentamento com o Exército.

Isaza estava junto ao presidente Uribe, que lhe ofereceu uma recompensa e uma nova vida em liberdade, na França.

O guerrilheiro viverá nesse país sob um status ainda não definido, pois o presidente Nicolas Sarkozy deu o sinal verde à acolhida do rebelde, mas fontes do Executivo francês informaram hoje em Paris que haverá "condições" para este abrigo. EFE jgh/ab/db

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