Ex-presos cubanos se sentem enganados pelo governo espanhol

Em Madri, eles reclamam de falta de assessoria jurídica e pedem que União Europeia mantenha sua posição comum sobre regime cubano

iG São Paulo |

Os 11 dissidentes cubanos libertados e amparados na Espanha disseram nesta segunda-feira que se sentem "enganados" pelo governo espanhol por ele não cumprir os compromissos assumidos antes de sua partida de Havana, Cuba, incluindo assessoria jurídica e ajudas para sua manutenção e aluguel de imóveis.

Julio César Gálvez, um dos 11 ex-presos cubanos , denunciou sua situação em coletiva realizada às portas do Hotel "Welcome", no madrilenho bairro de Vallecas, onde os dissidentes estão hospedados desde que começaram a chegar à Espanha, na terça-feira do dia 13 de julho.

Acompanhado de outros dissidentes, Gálvez leu um comunicado no qual os ex-presos mostram seu "desacordo" com a intenção de alguns países europeus de modificar a "posição comum" da União Europeia (UE) sobre Cuba, política baseada até agora no condicionamento do diálogo com o regime castrista aos avanços democráticos.

Em seu manifesto, os ex-presos cubanos de Madri sublinharam que "o governo cubano não deu passos que evidenciam uma clara decisão de avançar em direção à democratização" do país. Nesse sentido, solicitaram aos países da UE que "não suavizem suas exigências para conseguir mudanças para a democracia em Cuba e para alcançar para todos os cubanos os mesmos direitos que desfrutam os cidadãos europeus".

Os ex-presos anunciaram que nas próximas horas se reunirão com Agustín Santos, o chefe de gabinete de ministro de Assuntos Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, para falar sobre seu futuro imediato.

Depois de um inédito diálogo entre o cardeal Jaime Ortega e o presidente Raúl Castro, o governo cubano aceitou libertar 52 presos políticos cubanos dos 75 opositores condenados em 2003 na chamada Primavera Negra. Dos 20 que aceitaram ir para a Espanha , 11 já se encontram no país e outros oito devem embarcar nesta segunda-feira em Havana para desembarcar na terça-feira em Madri, elevando para 19 o número total de dissidentes libertados e transferidos para a Espanha.

Os oito libertados são Manuel Ubals González, Ricardo Enrique Silva Gual, Alfredo Manuel Pulido López, Blasgiraldo Reyes Rodríguez, Jorge Luis González Tanquero, José Ubaldo Izquierdo Hernández, Arturo Pérez de Alejo Rodríguez e Antonio Ramón Díaz Sánchez. Acompanhados por 38 parentes, os dissidentes viajarão de Havana a Madri em um voo da companhia aérea espanhola Iberia que chegará na terça-feira ao aeroporto de Barajas.

No último dia 17, o ministro de Assuntos Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos, anunciou que nove presos políticos cubanos chegariam à Espanha, uma vez libertados pelo Governo da ilha.

null Refúgio no Chile

Izquierdo Hernández, um dos presos que embarcarão nesta noite, viajará primeiro a Madri para depois ser acolhido no Chile, juntamente com sua família, na condição de refugiado político. De acordo com a chancelaria chilena, as negociações sobre sua transferência a Santiago deverão ser feitas por meio da Embaixada do Chile na capital espanhola.

O dissidente cubano trabalhava como técnico em gastronomia antes de ser detido, por apoiar o Projeto Varela. Izquierdo, coordenador do grupo 'Comisión Cuba', membro do Partido Liberal Democrático, foi detido em 19 de março de 2003 e condenado a 16 anos, dos quais já cumpriu sete na penitenciária de Guanajay, em Havana.

Diplomatas dos EUA

Diplomatas dos EUA devem se reunir na terça-feira com familiares dos presos políticos cubanos que se negaram a viajar a Madri do total de 52 opositores que serão libertados gradualmente. O encontro está previsto para as 13 horas locais (14 horas de Brasília) na Seção de Interesses de Washington em Havana (Sina), tendo representantes da Igreja Católica e da Embaixada da Espanha como convidados, disseram à AFP membros das Damas de Branco, familiares dos presos políticos.

"Há um convite", afirmou um porta-voz da Igreja, sem informar se um representante participará da reunião, ainda não confirmada por porta-vozes da Sina.

A líder das Damas de Branco, Laura Pollán, mulher do preso político Héctor Maseda, de 67 anos e condenado a 20 anos de prisão, calcula que em torno de 20 parentes dos réus participarão da reunião na Sina, apesar de não descartar, segundo versões do grupo, uma mudança para entrevistas individuais ou em grupos.

"A única coisa que sabemos é que convidaram um representante de cada preso que não foi contatado pela Igreja (que os consulta para emigrar) ou daqueles que se negaram a viajar à Espanha, como meu marido", declarou Pollán. Dos que se negaram, alguns querem permanecer em Cuba enquanto outros desejam ir aos EUA.

Uma porta-voz do Departamento de Estado informou em Washington que o cardeal visitou os EUA em junho, antes de Igreja anunciar que o governo libertaria os presos.

Segundo o jornal espanhol El País, que citou altas fontes do governo Barack Obama, Ortega esteve em Washington de 21 a 27 de junho e se reuniu entre outros com o subsecretário adjunto para a América Latina, Arturo Velenzuela, que em 6 de julho disse estar disposto a conversar sobre esses temas "se fosse necessário".

*Com EFE e AFP

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