Ex-presidente Clinton foi fundamental para acordo de paz na Irlanda do Norte

Macarena Vidal Washington, 9 abr (EFE).- O Acordo da Sexta-Feira Santa na Irlanda do Norte, que ajudou a pôr fim a um dos conflitos mais sangrentos do século XX, provavelmente não teria existido sem a oportuna intervenção do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e, sobretudo, a discreta - embora firme - mediação de seu enviado, o ex-senador George Mitchell.

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Em 10 de abril de 1998, Mitchell, com um sorriso contrastando com o ar impassível com que tinha conduzido as negociações, fez um pronunciamento à imprensa em Stormont, nos arredores de Belfast, para anunciar o histórico acordo de paz.

"Tenho o prazer de anunciar que os dois Governos e os partidos políticos da Irlanda do Norte chegaram a um acordo", disse na ocasião.

A singela frase encerrava 48 horas de ritmo frenético em Stormont, nas quais os negociadores, incluindo os primeiros-ministros da Irlanda, Bertie Ahern, e do Reino Unido, Tony Blair, não tinham dormido para tentar fechar um acordo que em mais de uma ocasião parecia estar escapando entre os dedos.

Do outro lado do Atlântico, o presidente Bill Clinton suspirava aliviado na Casa Branca. Tinha passado a noite colado ao telefone, como tinha prometido a Blair.

As ligações telefônicas de Clinton, tanto para unionistas como para nacionalistas, deram garantias aos partidos sobre a seriedade do que estava em negociação, e arrancaram finalmente um "sim" de Gerry Adams, líder do Sinn Féin - braço político do Exército Republicano Irlandês (IRA) -, e de David Trimble, líder unionista.

Menos de duas horas depois do anúncio, Clinton comparecia ao Salão Oval. "Após 30 anos de um inverno de violência sectária, a Irlanda do Norte tem hoje a promessa de uma primavera de paz", disse na ocasião, em uma declaração aos cidadãos americanos.

O presidente dos EUA tinha motivos para estar satisfeito. O Acordo da Sexta-Feira Santa se transformava em uma das peças fundamentais de seu legado e um dos fatos mais importantes de sua política externa.

Essa foi a primeira vez que um presidente americano se envolveu de forma profunda em um complicado processo que, durante anos, foi conhecido na província do Ulster simplesmente como "The Troubles" ("Os Problemas").

Seu envolvimento pessoal no processo de paz para a Irlanda do Norte remontava a 1994, quando, em meio a uma grande polêmica, autorizou pela primeira vez o líder do Sinn Féin a visitar os EUA, e pouco depois, a própria Casa Branca.

Consciente de que sua participação no caso lhe renderia a simpatia dos cerca de 40 milhões de americanos de origem irlandesa, Clinton fez em novembro de 1995 sua primeira visita à província.

Realizaria mais duas durante seu mandato, em 1998 e 2000.

Pouco depois da primeira visita, o então presidente americano anunciou, em 1996, a nomeação de Mitchell, um ex-senador de pai irlandês, como seu enviado pessoal para as negociações de paz.

Apesar de sua ampla experiência diplomática, segundo suas próprias palavras, Mitchell nunca suspeitou de "que seriam tão grandes os obstáculos a serem enfrentados nessas negociações".

Após vários meses, Mitchell tinha conquistado o respeito das partes envolvidas, por meio de um caráter amável, firme e neutro.

Mas os avanços obtidos tinham sido poucos.

Em 9 de abril de 1998, no entanto, colocou um ultimato sobre a mesa: "Ou há acordo ou acabam as negociações". Ganhou a aposta com a obtenção de um pacto.

Talvez não suspeitasse que ainda acabaria vivendo na província três anos e meio para tratar de conseguir o desarmamento do IRA.

Houve recuos no processo, como o atentado cometido na cidade norte-irlandesa de Omagh, que deixou 29 mortos pouco menos de quatro meses depois da assinatura do acordo, e as repetidas dissoluções do Governo de poder compartilhado na província.

Apesar desses fatores, o processo trouxe grandes resultados: a província goza hoje de uma Administração capaz de reunir em negociações o Sinn Féin e o Partido Democrático Unionista (DUP), antes grandes inimigos. EFE mv/fr

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