Ex-premiê da Ucrânia é condenada a 7 anos de prisão

Yulia Tymoshenko também terá de pagar multa de US$ 200 milhões por abuso de poder em acordo de gás natural com a Rússia em 2009

iG São Paulo |

Um tribunal ucraniano condenou nesta terça-feira a ex-premiê Yulia Tymoshenko a 7 anos de prisão por abuso de poder em um acordo de gás natural feito em 2009 com a Rússia. "O tribunal determinou que Tymoshenko é culpada e a sentenciou a 7 anos", disse o juiz Rodion Kireyev. Yulia também foi condenada a pagar uma multa de US$ 200 milhões por danos e desabilitada de exercer cargos públicos por três anos.

AFP
Yulia Tymoshenko fala enquanto juiz Rodion Kireyev lê veredicto contra ela em Kiev, Ucrânia
A sentença - ditada em audiência no juizado do distrito Pechora, em Kiev, transmitida ao vivo pela TV ucraniana - destrona a "princesa" da política ucraniana, que cativou a todos em 2004 ao liderar a Revolução Laranja.

Kireyev emitiu a sentença - a pena máxima pedida pelos promotores públicos - ao final de um julgamento de três meses que dividiu a sociedade da ex-república soviética e põe em risco as relações com o Ocidente.

A União Europeia, importante parceiro comercial da Ucrânia, alertou que a prisão da carismática líder da oposição colocará em risco a ratificação de um acordo de associação, previsto para ser assinado ainda neste ano.

Yulia, de 50 anos, sorriu no momento em que Kireyev anunciou a sentença. Mas ela então se levantou e - enquanto ele ainda lia o veredicto - denunciou o "regime autoritário" do presidente Viktor Yanukovich e a falta de justiça na Ucrânia sob seu governo, afirmando que apelará da sentença na justiça europeia.

"Lutaremos para defender nossa reputação ante as instâncias europeias", disse. "A condenação não me deterá. Viva a Ucrânia! Devemos ser fortes e proteger a Ucrânia do autoritarismo e da falta de liberdade", completou a líder da oposição.

Mais cedo, Kireyev disse que a ex-premiê havia abusado de seus poderes ao coagir a empresa estatal de energia Naftogaz a assinar em 2009 um acordo de dez anos para fornecer gás natural à Rússia. O acordo fez com que a Ucrânia pagasse um preço exorbitante pelo gás natural.

Yulia, que foi primeira-ministra duas vezes, mas perdeu a disputa pela presidência para Yanukovich em fevereiro de 2010, disse que seu julgamento era uma vingança de seu arquirrival e negou que tivesse agido ilegalmente.

Perfil

A vida dessa economista ucraniana, que tem uma trança loira em forma de coroa como sua principal marca, foi uma autêntica montanha-russa desde que foi escolhida deputada em 1998. Quanto presidia o comitê de orçamentos da Rada Suprema (legislativo ucraniano), o então primeiro-ministro reformista Viktor Yushchenko a nomeou vice-primeira-ministra de Energia.

Durante um ano e meio em que exerceu o cargo, Yulia tentou "pôr ordem" em um terreno minado pela corrupção e roubo de matérias-primas e também solucionar o problema da dívida com a Rússia, o que lhe valeu o apelido de "Princesa do Gás".

No entanto, sua gestão não foi vista com bons olhos pelo presidente Leonid Kuchma, que conseguiu sua destituição em janeiro de 2001 com acusações de "fraude, contrabando e evasão de impostos". Ela foi detida em duas ocasiões e cumpriu várias semanas de prisão preventiva sob suspeita de crimes financeiros, mas a Justiça desprezou as acusações sem sequer chegar a julgamento.

Desde então, a carismática líder política dedicou todas as suas energias para criticar Kuchma e o premiê Yanukovich. Após as eleições presidenciais de novembro de 2004, Yulia incentivou as massas nas ruas de Kiev a apoiar Yushchenko e denunciar a fraude, movimento popular de protesto que ficou conhecido como Revolução Laranja.

Com a vitória final de Yushchenko nas eleições, Yulia se transformou na principal candidata a dirigir o novo governo pró-Ocidente. Entretanto, ela só ocupou o cargo de primeira-ministra de 4 de fevereiro a 7 de setembro de 2005, quando foi destituída por Yushchenko e substituída por Yuri Yekhanurov.

A destituição aconteceu depois que vários colaboradores de Yushchenko foram acusados de corrupção e tráfico de influência, e depois que a gestão de Yulia foi duramente criticada.

Mais tarde, o trabalho incansável de oposição dela deu frutos. Nas eleições legislativas antecipadas de setembro de 2007, Yulia foi a segunda mais votada com mais de 30% dos votos. Após várias semanas de consultas, seu partido criou uma nova maioria parlamentar laranja com a formação presidencialista "Nossa Ucrânia - Autodefesa Popular", que permitiu a Yulia ser aprovada como primeira-ministra.

Depois de alguns meses de gestão, ela rompeu definitivamente relações com Yushchenko, então presidente, que lhe acusou de má gestão econômica durante a crise.

No entanto, sua ambição era se transformar em presidente, por isso ela decidiu se candidatar às eleições presidenciais de 2010, quando foi derrotada no segundo turno por Yanukovich. Desde então começaram os problemas para Yulia, que tentou unir as forças da oposição para causar dificuldades ao governo do primeiro-ministro pró-Rússia Nikolai Azárov.

Em maio de 2010 foi aberto um processo penal contra Yulia pelo desvio de bilhões de euros em fundos públicos e, um ano depois, ela foi acusada de se exceder em suas funções ao assinar em 2009 um contrato de gás com a Rússia.

AFP
Partidários da ex-premiê Yulia Tymoshenko rompem formação policial em frente de corte judicial em Kiev, Ucrânia
O processo judicial contra Yulia começou em maio e durante esses meses a ex-primeira-ministra acusou Yanukovich de realizar uma "campanha de perseguição política" contra ela. Em 5 de agosto, Yulia esgotou a paciência do juiz e foi enviada à prisão preventiva por desacato ao tribunal, decisão que foi condenada de forma unânime pela comunidade internacional.

De acordo com pessoas próximas a Yulia, sua saúde piorou consideravelmente durante o período atrás das grades, mas isso não abrandou o juiz, que ditou a sentença condenatória nesta terça-feira.

Yulia se casou em 1979 com Aleksandr Timoshenko, com quem tem uma filha, Yevgenia, nascida em 1985.

*Com Reuters, AFP e EFE

    Leia tudo sobre: yulia tymoshenkoucrâniakiev

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG