Joaquín Rábago. Londres, 19 jan (EFE).- A correspondência de Vincent Van Gogh constitui um testemunho de primeira mão de sua mais que surpreendente evolução na breve carreira de artista, como fica evidente na exposição dedicada as suas cartas e a sua pintura no Royal Academy of Arts.

Vincent van Gogh (1853-1890) não é o único criador que deixou uma enorme correspondência - basta citar, por exemplo, ao por ele tão admirado Eugène Delacroix -, mas nenhuma com tamanha sinceridade que demonstra não só o artista, mas também o homem.

Van Gogh foi um artista de enorme produtividade: de vocação tardia, em só dez anos superou as 2 mil obras, das quais 600 aparecem mencionadas em alguma de suas cartas.

As cartas são dirigidas principalmente ao seu irmão e confidente, Theo, mas também a outros membros de sua família, como sua irmã Willemien, e a colegas artistas como Émile Bernard, Anton van Rappard e Paul Gauguin, entre outros.

É difícil saber quantas cartas ele escreveu ao total: há registros de 819, embora por referências nas cartas por ele recebidas seja possível chegar a 2 mil, ou seja, mais ou menos o mesmo número de pinturas e desenhos.

Após seu suicídio, Theo conservou a correspondência a ele dirigida e à viúva deste, Jo van Gogh-Bopnger, que publicaria uma primeira edição em 1914.

Agora, com ajuda dos especialistas Leo Jansen, Hans Luijten e Nienke Bakker, do museu Van Gogh, de Amsterdã, Thames & Hundson publicou uma edição completa e anotada em três idiomas, além de uma edição integral na rede, de todas as cartas do artista holandês.

Aos esforços desses três analistas se somaram os da britânica Anne Dumas, da Royal Academy of Arts, que selecionou cerca de 40 cartas originais para expô-las junto a 65 pinturas e 30 desenhos nessa prestigiosa instituição londrina.

A seleção das obras foi guiada por alguns dos temas principais que dominam a correspondência: os esforços do autodidata para aprender os rudimentos de seu ofício, sua paixão pela cor, a importância dada à figura humana, os ciclos da natureza e sua inclinação à literatura.

"Embora ame a paisagem, amo ainda mais a figura humana, mas é o mais difícil", escreveu em uma ocasião Van Gogh, que, filho de um pastor protestante e inicialmente missionário, ele mesmo, sentiu-se sempre atraído pelo povo humilde como os camponeses, tão próximos à natureza, e os trabalhadores manuais.

Como explicou à Agência Efe a comissária da exposição, as cartas mostram um Van Gogh que nada tem a ver com o gênio louco da lenda, mas, pelo contrário, um artista metódico, extremamente disciplinado e sistemático, mas também apaixonado na sua busca da verdade mais profunda.

O que hoje nos fascina ao ler a correspondência de Van Gogh é precisamente encontrar com um homem que, longe de perseguir a fama rápida, como tantos pseudo-artistas de hoje, não se sente nunca satisfeito com o conquistado, e tenta superar-se continuamente em uma luta quase titânica para vencer suta quase titânica por, o do Globo de Ouro toridades, entre estas a presidente suas limitações.

Van Gogh se apresenta como um homem que não desanima nunca apesar de não ser reconhecido nem recompensado pelos seus esforços: segundo Dumas, apenas vendeu um ou dois quadros em sua vida, apesar da condição de marchand de seu irmão, que emprestaria uma indispensável ajuda financeira e moral até o fim.

Por meio de cartas e pinturas, a exposição oferece um fascinante percurso pela fulminante carreira de Van Gogh: a partir de seu começo trôpego de desenhista preocupado pela perspectiva até suas obras-primas como seu autorretrato de 1888, sua taberna com cebolas, os retratos de "A Arlesiana", da família do carteiro Roulin, do médico Paul Gachet e as paisagens expresionistas de Auvers.

A exposição londrina, que estará aberta do próximo sábado até o dia 18 de abril, acaba com a última carta enviada ao seu irmão, em 23 de julho de 1890, quatro dias antes do suicídio com um disparo no peito em meio de um desses campos de trigo que tanto o fascinavam.

Nela, Vincent agradecia a Theo pela nota de 50 francos que este o tinha enviado, incluindo apontamentos de uns quadros que acabara de pintar e lhe pedia material de pintura para ele e um artista holandês hospedado no mesmo albergue. EFE jr/dm

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