Expectativas e cautela marcam a espera pela posse de Obama na Europa

LONDRES - O otimismo popular que cerca a posse de Barack Obama, e que surgiu ainda durante sua campanha eleitoral, não substitui a apreensão da mídia europeia em torno de uma presidência que se inicia sobrecarregada com expectativas precoces. Diante da natureza histórica da eleição do primeiro presidente negro americano, a Europa busca conter o entusiasmo enquanto aguarda as ações de Obama à frente dos Estados Unidos.

Carolina Ribeiro Pietoso, repórter iG em Londres |

"Desde que Barack Obama anunciou sua candidatura em Springfield, Illinois, há quase dois anos, nós testemunhamos uma série de 'momentos históricos' - um mais significativo do que o outro. Agora, sua posse como o 44º presidente dos Estados Unidos marcará o final de uma trajetória dramática, implausível e impressionante", escreveu Gary Younge no jornal britânico The Guardian. "A partir do momento em que ele erguer a mão para fazer seu juramento, a transição de sonho a realidade, aspiração a destino, se completará. Então, os partidários de Obama terão que entender que ele chegou. Daquele momento em diante, a questão não será mais o que ele significa ou simboliza, mas sim o que ele faz".

A tarefa não será simples. Os Estados Unidos enfrentam a pior crise econômica desde os anos 1930, suas forças militares estão envoltas em duas guerras e a política externa do país está em dificuldades. Além disso, durante a campanha presidencial, projetos domésticos ambiciosos foram prometidos ao povo americano, como a reforma do sistema de saúde e uma nova política energética. "Obama enfrenta a difícil tarefa de equilibrar sua promessa de esperança com a necessidade de gerenciar as expectativas geradas por ela", escreveu Tom Baldwin no The Times de Londres.


Expectativa para o governo de Obama é grande / AP

Depois de anos de transição política nos quais representantes europeus que atuaram como enviados de Bush  (Tony Blair, Silvio Berlusconi) e líderes corruptos (Jacques Chirac) se aposentaram ou foram retirados do poder, a Europa vive um clima de ansiedade pelo fim da era George W. Bush. Ainda assim, a chegada de Obama é aguardada com cautela. "Há muito a ser feito. Diversas vezes Obama usou o fato de só poder existir um presidente por vez, mas a verdade é que nos últimos anos não houve liderança alguma e os Estados Unidos e o mundo imploram por mudanças", afirmou Younge. "Mas ainda que ansiedade seja enorme, devemos esperar por suas ações".

Otimismo popular

"Um homem não tem como mudar o mundo", afirmou a bióloga francesa Marie-Aude Portier, 34, "mas ele pode começar essa mudança e eu tenho certeza que Obama fará isso". Segundo François Sergent, do jornal Liberation, os franceses apoiam a escolha de um "homem para quem o mundo não é uma oposição simplista entre bem e mal. Um político que demonstrou ao longo de sua candidatura que conseguia almejar a inteligência de seus eleitores e não apenas seus temores". 

O estudante alemão Markus Sindel, 22, é um dos otimistas declarados. "Eu estava em Berlim em junho do ano passado quando Barack Obama fez seu discurso a uma multidão de mais de 200 mil pessoas. Aquele foi um dos dias mais emocionantes da minha vida, pois eu tive certeza de que tudo iria mudar. Eu acredito nisso e acho que amanhã será o primeiro dia dessa mudança. Tudo vai ser diferente", ele disse. O jornal Der Tagespieggel concorda que a esperança alemã em Obama ficou clara na visita do então candidato à capital do país, mas diz também que questões polêmicas como a guerra no Afeganistão, o meio-ambiente e a indústria automobilística "devem causar conflitos de interesse entre os países em breve".


Obama discursa para multidão em Berlim / Reuters

O jornal El País preferiu ressaltar que o "sonho de (Martin) Luther King, agora cumprido, despertou o entusiasmo nos cidadãos americanos. O país tem muitas esperanças em seu primeiro presidente negro e não parece vacilar diante destes sentimentos". Pablo Pose, 37, fotógrafo que vive em Madri, concorda. "Os americanos estão esperançosos e essa emoção é contagiante. Acredito que mesmo que Obama não consiga fazer tudo que prometeu, o fato dele conseguir impulsionar o povo americano a se mobilizar e a tomar as rédeas de seu país já vai mudar muita coisa. Antes esperávamos que alguém fizesse tudo, que um líder cuidasse de nós, agora cada pessoa do mundo sabe que tem que fazer a sua parte".

"Meus amigos dizem que ele não irá durar muito no poder, que haverá algum atentado contra sua vida por ele ser negro", contou o estudante Harry Reid, 23. "Eu acho que não. Acredito que ele conseguiu unir os Estados Unidos e o mundo com seu objetivo de mudança. Essa mudança inclui o fim do preconceito e da violência, que é o desejo da maioria. Quando a maioria age, uma minoria violenta e preconceituosa não tem como vencer". Também não há dúvida de que Obama tem tentado amenizar a situação alertando a América sobre as decisões difíceis e impopulares que terá que tomar. "Ele certamente irá errar e fará concessões. Mas ainda que seja um político de enorme talento e um líder nato, Obama não é mágico nem santo. Ele é um ser humano", disse Andres Rawnsley no The Guardian.

Século 21

A posse de Obama parece sugerir a ideia de que "apenas agora, na escada do Capitólio em Washington, começará o século 21", escreveu Francisco G. Basterra no jornal espanhol El País. "Tudo aponta para o novo início que o mundo precisa: político, econômico, ambiental, cultural. No entanto, devemos prestar muita atenção às palavras que pronunciará o novo presidente em seu primeiro discurso, pois este será seu primeiro ato concreto".

Enquanto Obama se prepara para a cerimônia, sua equipe já preparou as decisões que serão tomadas depois do dia 20 de janeiro. "Obama manterá suas promessas, eles garantiram. Ele reunirá os chefes do Estado-maior e exigirá um plano de retirada do Iraque. Ele dará a ordem executiva de fechamento de Guantánamo. Ele tomará uma posição em relação ao conflito no Oriente Médio", afirma o jornal Le Monde.

Mas "até onde o apelo mundial da imagem de Obama irá restaurar a influência americana?", questionou Henri Astier da BBC. Estudiosos internacionais não tem tanta certeza do que sua imagem presidencial pode conseguir e alguns acreditam que seus fãs em países europeus podem se decepcionar. Mas qualquer especulação sobre suas ações futuras serão infrutíferas. As respostas virão em breve e o momento pede cautela.

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