Haia, 10 fev (EFE).- Em depoimento ao Tribunal Penal Internacional (TPI), uma testemunha usada como menino-soldado pelo ex-líder miliciano congolês Thomas Lubanga disse que as tropas do acusado lhes batiam até matar e que as meninas eram estupradas logo após chegarem aos campos de treinamento.

O ex-menino-soldado disse que tinha "uns 11 anos" quando foi recrutado.

A presença de Lubanga na Corte e o medo de ser acusado na República Democrática do Congo (RDC) o levaram a interromper seu depoimento e a retirar suas primeiras declarações aos juízes, na semana passada.

Após receber assessoria legal, assegurando-o de que seu testemunho em Haia não pode servir de base para um julgamento na RDC, ele retornou e relatou novamente sua história.

Ele explicou que os homens de Lubanga, pertencentes à União de Patriotas Congoleses (UPC), os "batiam na frente de todos".

E acrescentou: "Se estivéssemos doentes, também nos batiam saltavam sobre nós, nos levantavam pelos pés e quando mal tínhamos forças pelos golpes, nos entregavam os uniformes", explicou o menino, que depôs com voz e imagem distorcidas.

A testemunha contou também que as tropas de Lubanga o recrutaram quando ele voltava do colégio junto com um grupo de amigos.

"Vamos levá-los para que sejam treinados e possam colaborar na segurança do país", relatou a testemunha a respeito das palavras dos soldados.

"Se respondêssemos, nos batiam, e, após andar umas duas horas de caminho, chegamos ao campo (de treinamento)", especificou.

Segundo o jovem, as meninas recrutadas eram "algumas maiores e outras menores" que "cumpriam as mesmas ordens que os meninos (...) mas eram estupradas logo que chegavam e tinham que estar com os soldados maiores".

Sem que o público tivesse acesso a nenhum dado de sua biografia, o ex-menino-soldado se referiu reiteradamente em seu relato aos maus-tratos que sofriam das tropas da UPC.

"Se perdíamos a arma, nos batiam, inclusive duas ou três pessoas ao mesmo tempo, (...); se não podíamos correr porque nos davam sapatos pequenos demais, também nos batiam; se tentássemos fugir, nos batiam ou atiravam".

"Eu mesmo vi, com meus próprios olhos, como algumas crianças morreram por tentar. Sofremos demais", refletiu.

Quando a promotora Fatou Bensouda lhe perguntou o que sentiu na semana passada, quando teve que interromper seu depoimento, a testemunha respondeu: "Vieram muitas coisas à minha cabeça, estava zangado e não era capaz de declarar".

Lubanga, cujo julgamento começou em 26 de janeiro, é acusado de recrutar crianças menores de 15 anos na RDC entre 2002 e 2003. EFE mr/jp

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