Exilados de Ruanda seguem em conflito étnico, 15 anos após genocídio

O genocídio que deixou cerca de 800 mil mortos em Ruanda completa 15 anos em meio ao esforço do país para reconciliar membros das etnias tutsi e hutu, mas as tensões que deram origem à violência de 1994 imigraram com os refugiados ao exílio.

BBC Brasil |

"Antes do genocídio nós não sabíamos quem era tutsi ou hutu. Éramos todos ruandeses vivendo na Bélgica, íamos às mesmas escolas, éramos amigos", conta à BBC Brasil Beatrijs Vervust, uma tutsi que na época tinha 13 anos e já vivia em Bruxelas. "Quando começou o genocídio, começamos a diferenciar quem era quem. Foi então que soube que um de meus amigos era hutu e aquilo foi um choque. Paramos de nos falar."
Vervust lembra que a raiva contra os hutus foi crescendo automaticamente, enquanto via pela televisão as notícias do massacre.

"Nada pode mudar isso. Eles mataram meus avós, meus tios, meus primos. É algo que não poderei perdoar jamais", afirma a jovem, que desde então não tem amigos da etnia hutu.

"Tenho raiva dos hutus. Não escondo, não me importa dizê-lo. Em Kigali (capital ruandesa) não se pode falar isso, mas aqui há liberdade de expressão e me permito dizer a eles o que eu penso."

Convivência tensa

Em Ruanda, uma lei nacional proíbe qualquer referência étnica, numa tentativa de apagar as diferenças do passado e fomentar a convivência entre tutsis e hutus.

Mas na Bélgica, antigo império do pequeno país centro-africano, lar de mais de 3 mil ruandeses, sobreviventes e acusados de participar do genocídio foram acolhidos sem distinção pelo governo, que não se preocupou em desenvolver algum programa de reabilitação ou integração dos refugiados.

"A maior parte dos que vivem aqui eram vizinhos lá (em Ruanda). Moravam no mesmo bairro, frequentavam os mesmos cafés, e viram o que uns e outros cometeram. É impossível chegar aqui e simplesmente apagar tudo", explica Chantal Karara, também tutsi, presidente da Comunidade Ruandesa da Bélgica, uma organização sem fins lucrativos e que, segundo ela, reúne cerca de 500 tutsis e hutus.

Théophile Kalisa, secretário-geral da Ibuka, uma associação de sobreviventes do genocídio formada apenas por tutsi, concorda: "É difícil pensar e viver normalmente depois de tudo o que vivemos".

Ambas organizações afirmam que muitos de seus membros sofrem contínuas ameaças e intimidações por parte de hutus extremistas também refugiados no país.

"Os extremistas têm alguns bares e cafés onde não permitem a entrada de tutsis. Ao mesmo tempo, vão aos locais frequentados por tutsis e fazem ameaças claras, com frases como 'O que vocês vieram fazer aqui?', 'Não é possível que, depois de tudo o que fizemos para acabar com vocês, vocês continuem existindo'", acusa Karara.

Acusações

Não é difícil encontrar um tutsi disposto a relatar alguma história de tentativa de assassinato motivado por um ódio racial abertamente declarado pelos agressores.

Kalisa lembra que no ano passado um hutu acusado de participar do genocídio tentou esfaquear um tutsi em um bar de Bruxelas gritando que, por sua etnia, ele não merecia viver. Vervust conta que teve uma tia tutsi assassinada a golpes de machete pelo marido hutu, que também ameaçara sua mãe e outros membros da família.

Os crimes são reais, mas os motivos nunca foram esclarecidos pela polícia belga, e os hutus acusam os tutsis de usar o genocídio como desculpa para todo tipo de conflitos.

"Por que não é possível que o marido a tenha matado porque achou que estava sendo traído? O homem do bar deve ter sido esfaqueado durante uma briga de bêbados, como muitas que acontecem todos os finais de semana em Bruxelas", defende um hutu de meia idade que se recusa a dizer seu nome. Talvez por medo de ser julgados, os hutus parecem ter receio de se identificar.

Perguntados sobre sua etnia, os hutus entrevistados para esta reportagem - identificados como tal por outros ruandeses - apagavam automaticamente o sorriso e respondiam com outra pergunta: "O que importa?".

"Somos todos iguais, ruandeses", coincidiu a maioria, recusando-se a dar continuidade à conversa.


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