Islamabad, 28 jun (EFE).- O Exército do Paquistão lançou uma ofensiva na demarcação tribal de Khyber, onde os combates entre dois grupos rivais causaram até agora 60 mortes, sob ameaças do líder talibã Baitullah Mehsud de suspender o diálogo com o Governo caso esse tipo de operação seja efetuada.

Um grande contingente de forças de segurança paquistanesas foi enviado a Khyber - região que faz fronteira com o Afeganistão - com veículos armados e tanques, enquanto vários helicópteros militares sobrevoaram o local, informou o canal "Geo TV".

Esta ofensiva contra os insurgentes ocorreu depois de os choques entre ambas as facções deixarem 60 mortos e 80 feridos no vale de Terah, situado em Khyber, nos últimos cinco dias.

O toque de recolher por tempo indeterminado já foi imposto na região, enquanto na área de Tehsil Jamrood foram registrados disparos de morteiros.

As forças paquistanesas foram enviadas também para Tehsil Bara, situada no vale de Terah, embora os conflitos entre grupos tribais continuassem hoje, segundo testemunhas citadas pela "Geo TV".

Ambas as facções estão usando armas pesadas e rápidas nos combates.

A operação é realizada justamente depois de o líder talibã paquistanês Baitullah Mehsud ameaçar pôr fim ao diálogo com o Governo e romper os acordos de paz assinados até agora, caso o Exército lance novas operações contra os insurgentes no noroeste do país.

"Não toleraremos ações contra os talibãs em nenhuma região da NWFP (Província da Fronteira do Noroeste) nem das FATA (agências tribais)", disse Mehsud em comunicado divulgado pelo jornal local "The News".

"Se o Governo continuar com tais medidas anti-talibãs e lançar novas operações militares contra nós, seremos obrigados a contra-atacar em cidades do Paquistão", disse o líder talibã por meio de um porta-voz.

Mehsud, que tem sua base de operações na região tribal do Waziristão do Sul e que foi acusado pelo Governo do assassinato da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, desmentiu que os insurgentes queiram tomar a cidade de Peshawar, capital da NWFP, embora tenha afirmado que eles têm capacidade para isso.

"Nós, talibãs, não podemos pensar em causar dano à nossa querida Peshawar, que é a capital e faz parte da identidade de nossa província", acrescentou.

O novo Governo paquistanês, liderado pelo Partido Popular, o mesmo de Bhutto, não foi a favor da política contra o terrorismo do presidente do país, Pervez Musharraf.

Em vez disso, o Executivo apostou em dialogar com os grupos que possuem as armas, além de potencializar o desenvolvimento econômico da empobrecida área tribal que faz fronteira com o Afeganistão.

O Executivo assinou acordos de paz com líderes locais no vale de Swat (norte) e em várias demarcações tribais, o que não evitou que a violência continuasse no conflituoso noroeste paquistanês.

O ministro da Defesa paquistanês, Ahmed Mukhtar, assegurou hoje que o Governo deu autorização ao chefe do Exército, Ashfaq Pervez Kiyani, para realizar operações militares no noroeste do país caso seja necessário.

Na sexta-feira,, a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Louise Arbour, em visita a Islamabad, insistiu em que o Governo paquistanês "garanta a segurança de seus cidadãos" e assinalou que alguns dos acordos com grupos islamitas deixaram parte da população em uma situação "vulnerável".

"Os acordos de paz com alguns grupos de insurgentes reduziram a autoridade do Estado (...), deixando os aldeões vulneráveis a uma série de abusos sérios, como ataques a minorias e assassinatos extrajudiciários", disse Arbour.

A alta comissária também censurou "violações dos direitos humanos no contexto da luta contra o terrorismo".

Na região onde é desenvolvida a ofensiva fica a conhecida passagem de Kyber, uma das principais ligações entre o Paquistão e o Afeganistão.

Na região, onde predomina a etnia pashtun - a mesma dos talibãs -, seqüestros e saques são freqüentes, assim como combates entre grupos tribais. EFE igb/fh/db

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