Exército israelense é acusado de usar armas letais contra palestinos

Antonio Pita. Bilin (Cisjordânia), 1º mai (EFE).- A recente morte de um manifestante palestino trouxe à tona o aumento do emprego, por parte do Exército israelense, de armas potencialmente letais ou do mau uso de ferramentas antidistúrbios para reprimir protestos na Cisjordânia.

EFE |

Fogo real, balas de borracha ou bombas de gás lacrimogêneo atiradas contra o corpo das pessoas são termos familiares para os habitantes do povoado de Bilin, na Cisjordânia.

No local, durante toda sexta-feira, há quatro anos, palestinos se manifestam com ativistas israelenses e internacionais, em protesto contra o muro de separação que passa pelo território.

O Exército israelense afirma que o mecanismo é "permitido pelo Direito Internacional, sobre o qual existem pautas de ação e utilização destinadas a garantir um uso proporcional e mesurado", no contexto de protestos "violentos e ilegais".

"Bilin é o grande laboratório de experiências e oportunidades de mercado do Exército israelense", acusa Kobi Snitz, um dos poucos, mas atuantes israelenses que comparecem religiosamente ao ato contra a barreira, que cerca o território palestino para beneficiar o assentamento judaico de Modiin Illit.

Em Bilin, como em outras localidades da Cisjordânia nas quais ocorrem protestos (como Nilin e Budrus, por exemplo), os soldados israelenses resgataram, desde o começo do ano, o uso da espingarda Ruger.

Essa arma tinha sido proibida pelo comando militar no começo da Segunda Intifada, após ter causado a morte de vários menores em Gaza, acusa a ONG israelense B'Tselem.

Em 2001, o então advogado militar geral, Menachem Finkelstein, qualificou a arma de letal, após comprovar em um experimento de campo que as tropas apertavam o gatilho com uma rapidez imprópria de quem abre fogo contra manifestantes.

"O erro foi que o Ruger acabou sendo visto como um meio de dispersar manifestantes, contrariamente à sua denominação original de uma arma como qualquer outra", afirmou, na época, um comandante militar israelense de alta patente ao jornal "Ha'aretz".

O Exército israelense admite que utiliza munição Ruger nos protestos, mas "não para dispersar" os manifestantes, e sob regras de uso "bastante rígidas", com "as mesmas limitações exatamente que vigoram sobre o disparo de fogo regular".

Nessa nova etapa, o Ruger já deixou vários feridos, mas um meio de contenção a priori menos perigoso -as balas de aço cobertas por uma fina camada de borracha - causou a morte, em quase nove anos, de 21 ativistas, segundo dados da B'Tselem.

Desse total, em 19 casos a morte foi devido ao uso "incontrolado" e "ilegal" da munição, como disparos de uma distância muito curta contra crianças ou na parte superior do corpo, acrescenta.

"Estas práticas se transformaram em algo comum entre as forças de segurança", entre outros motivos porque os autores "nunca são responsabilizados" pelo "uso ilegal" da munição, que "frequentemente" é feito seguindo instruções ou com o consentimento de um superior, denuncia a ONG.

Em outros casos, o problema não está na arma, e sim no emprego dessa, que transforma em letal o que não deveria ser mais que uma ferramenta antidistúrbios como as utilizadas com frequência em outros países.

É o caso das bombas de gás lacrimogêneo, que deveriam ser atiradas para cima em trajetória curva, mas que testemunhos e documentos gráficos mostram que são disparadas, com frequência, na horizontal e em direção ao corpo do ativista.

A isto se soma o fato de o Exército ter introduzido, recentemente, um novo cartucho para o gás, de maior alcance.

"Chamam ele de bote de fumaça, mas claro que mata pessoas se for disparado de muito perto", destacou Waqi Bornat, outro dos ativistas que participam dos protestos.

"Não se pode ver quando lançam (a bomba). Só consegue ouvir passar ao seu lado", acrescenta Nasir Samara, do Comitê Popular de Bilin.

Precisamente o impacto no peito dessa nova bomba matou, no último dia 17, em Bilin, o palestino Basim Abu Rahme, de 29 anos, e, um mês antes, em Nilin, feriu gravemente no rosto o ativista americano Tristan Anderson, de 37.

Nos dois casos, o Exército israelense concluiu as investigações internas sem consequências para os autores, por considerar que "não houve intenção de ferir os manifestantes" nem se realizou "disparo direto" algum. EFE ap/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG