Exército egípcio descarta usar força contra protestos 'legítimos'

Na véspera de marcha de 1 milhão, Exército diz reconhecer legitimidade de demandas, mas adverte contra atos de desestabilização

iG São Paulo | 31/01/2011 17:29 - Atualizada às 19:38

Compartilhar:

O Exército egípcio prometeu nesta segunda-feira não usar a força contra os manifestantes que protestam contra o governo do presidente do país, Hosni Mubarak, e reconheceu "a legitimidade das demandas da população", prometendo garantir "liberdade de expressão".

As afirmações foram feita após a convocação pela oposição de uma grande marcha na terça-feira, quando se completa uma semana desde o início da mobilização popular.

Um porta-voz do comando militar, Ismail Etman, apareceu na TV estatal dizendo que o Exército não "recorreu ou recorrerá ao uso da força" contra os manifestantes, mas alertou contra qualquer ato que desestabilize a segurança do país", os conclamando a não cometer atos que danifiquem a propriedade.

A declaração foi o sinal mais forte dado até agora pelo Exército de que permitirá que os protestos, que nesta segunda-feira completaram sete dias, continuem crescendo enquanto forem pacíficos. O comunicado não especifica quais demandas os militares veem como legítimas - mas a principal reivindicação dos manifestantes é a queda do presidente Mubarak.

Uma coalizão de grupos oposicionistas anunciou que planeja um protesto ainda maior para a terça-feira, afirmando que espera reunir 1 milhão no Cairo e Alexandria para marcar uma semana das manifestações. Segundo representantes da oposição, os protestos, que deixaram mais de cem mortos, continuarão até que haja uma ampla reforma política e econômica no Egito.

Anúncio do novo governo

No sétimo dia de protestos contra o regime, em que dezenas de milhares desafiaram o toque de recolher na praça Tahir, na capital Cairo, Mubarak deu posse ao novo governo, substituindo um gabinete que havia sido dissolvido como concessão aos protestos antigoverno. O anúncio foi feito após os sindicatos egípcios convocarem uma greve geral no Cairo, Alexandria, Suez e Port Said.

A Irmandade Muçulmana, o grupo de oposição mais influente do Egito, rejeitou o novo governo e pediu que prossigam as manifestações para a queda do regime. "A Irmandade Muçulmana anuncia sua total recusa à composição do novo governo, que não respeita a vontade do povo", diz o grupo em um comunicado.

Na modificação mais significativa do gabinete, o ministro do Interior - encarregado das forças de segurança internas - foi substituído. Um general de polícia reformado, Mahmoud Wagdi, foi nomeado no lugar de Habib el-Adly, que é amplamente rejeitado pelos manifestantes pela brutalidade mostrada pelas forças de segurança.

Ainda assim, é improvável que o novo gabinete satisfaça dezenas de milhares de manifestantes que saíram às ruas em todo o Egito para exigir a queda de Mubarak e de todo o seu regime.

Quando Mubarak anunciou na sexta-feira a dissolução do governo anterior e nomeou seu chefe de inteligência, Omar Suleiman, como vice-presidente, os manifestantes rejeitaram a medida a qualificando como uma tentativa de Mubarak, que governa o Egito de forma autoritária há 30 anos, para manter-se no poder.

Milhares de egípcios voltam a tomar centro do Cairo

A nova formação ministerial anunciada na televisão estatal incluiu autoridades leais ao regime de Mubarak, mas não mantém vários empresários proeminentes que tiveram postos econômicos e idealizaram as políticas de liberalização econômica das últimas décadas.

Muitos egípcios se ressentem da influência dos milionários magnatas-políticos, que eram aliados próximos do filho do presidente, Gamal Mubarak, muito tempo considerado seu herdeiro político.

No novo gabinete, Mubarak manteve seu ministro da Defesa de longa data, Field Marshal Hussein Tantawi, e o chanceler Ahmed Aboul Gheit. O ministro há mais tempo no gabinete, o titular de Cultura Farouq Hosni, foi substituído por Gaber Asfour, uma figura literária amplamente respeitada.

O mais famoso arqueológo egípcio, Zahi Hawass, foi nomeado para o Ministério de Antiguidades, um novo posto.

Na noite de domingo, Mubarak pediu a seu novo primeiro-ministro, Ahmed Shafiq, que dialogue com a oposição para promover a democracia no país. Ele pediu que o militar empreenda reformas na economia, orientadas à criação de emprego e ao controle da inflação, segundo declarou o presidente egípcio na televisão estatal "Nile TV".

A Irmandade Muçulmana, porém, rejeitou nesta segunda-feira manter qualquer diálogo com Shafiq e criticou Mubarak por tê-lo proposto na véspera. "Shafiq e Suleiman são pilares do regime e partícipes da injustiça e da corrupção, e a partir de suas mãos nunca conseguiremos reformas, tampouco a democracia", declarou um dos dirigentes dos Irmãos, Mahmoud Ghazali.

*Com AP, BBC, EFE e AFP

    Notícias Relacionadas


    Ver de novo