Serviços de internet começam a ser restabelecidos enquantos militares fazem apelo por 'volta da vida normal'

O Exército do Egito anunciou nesta quarta-feira que o toque de recolher vigente no país desde sexta-feira será reduzido em três horas. A partir de agora, a medida vale para o período entre 17h e 7h no horário local (13h e 3h de Brasília). Os serviços de internet também começaram a ser restabelecidos após cinco dias de bloqueio.

Os militares egípcios fizeram um apelo pelo fim das manifestações que acontecem diariamente no país desde o dia 25 de janeiro, e que levaram o presidente Hosni Mubarak a desistir de tentar a reeleição em setembro.

Soldado passa por manifestantes na praça Tharir, no centro do Cairo; na faixa, lê-se:
AP
Soldado passa por manifestantes na praça Tharir, no centro do Cairo; na faixa, lê-se: "o povo exige a derrubada do regime"

O porta-voz do Exército, Ismail Etman, fez um pronunciamento na televisão estatal no qual pediu que os jovens manifestantes encerrem os protestos "por amor ao Egito".

"Vocês saíram as ruas para expressar suas exigências e vocês são os únicos capazes de trazer a vida normal de volta ao Egito", afirmou. "Sua mensagem chegou, suas exigências são conhecidas."

Após o pronunciamento, a televisão estatal exibiu uma mensagem de texto que dizia: "As Forças Armadas pedem que os manifestantes voltem para casa para trazer a estabilidade de volta".

Discurso

O discurso de Mubarak, no qual prometeu não concorrer à reeleição, foi recebido com hostilidade pelas centenas de milhares de manifestantes que participavam de protestos em massa na terça-feira em vários pontos do país. Eles exigem que o líder deixe o poder imediatamente, e não em setembro, quando acaba seu mandato.

A multidão assistiu o discurso de Mubarak em um telão na praça Tahrir (ou praça da Libertação), epicentro dos protestos Muitos vaiaram o presidente e gritaram frases como: "não vamos embora até que ele vá embora", "Fora Mubarak!" e "A população quer que o presidente seja julgado". Alguns balançaram sapatos no ar - um profundo insulto no mundo árabe.

Nesta quarta-feira, muitos egípcios ainda estavam na praça Tahrir. Mohamed ElBaradei, um dos nomes cotados para substituir Mubarak, afirmou que as declarações do presidente são "uma manobra" para se manter no poder.

Mubarak também prometeu implementar uma série de reformas, incluindo um pedido ao Judiciário para que combata a corrupção, uma das reclamações dos manifestantes. No discurso que, segundo ele, estava concedendo em um "momento difícil", Mubarak disse que buscará mudanças na Constituição.

EUA

O pronunciamento foi feito após informações de que o presidente dos EUA, Barack Obama, disse a Mubarak que ele não deveria concorrer ao quinto mandato, efetivamente retirando o apoio dos EUA a seu principal aliado árabe, de acordo com diplomatas americanos no Cairo e Washington.

Citando uma autoridade americana não identificada, a Associated Press indicou que o recado de Obama a Mubarak foi dado pelo enviado dos EUA ao Cairo, o ex-embaixador no país Frank Wisner, que disse ao líder egípcio que Washington via sua presidência no fim, conclamando-o a preparar uma transição ordenada para uma real democracia com eleições.

A declaração de Mubarak também foi feita um dia depois de o Exército egípcio indicar a retirada de apoio ao líder ao prometer que não usaria a força contra os manifestantes, reconhecendo "a legitimidade das demandas da população" e prometendo garantir "liberdade de expressão".

Com AP, BBC, Reuters, EFE e AFP

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.