Excentricidades marcam alma argentina

Celebrado por ser berço do tango e de craques do futebol, país lidera o ranking mundial de psicólogos per capita

Thomaz Favaro, especial para o iG de Buenos Aires |

Definir a “argentinidade” é um dilema até para os próprios argentinos. E sua dificuldade se compara a tentar tirar uma foto de um pêndulo em movimento. Como o instrumento, os argentinos oscilam entre extremos: ssua característica básica é alternar picos de euforia com períodos de intensa depressão.

© AP
Argentinos costumam alternar picos de euforia com períodos de intensa depressão
As mudanças súbitas de humor podem se manifestar nas mais diversas situações, do futebol ao tango e à política. Seja onde for que apareçam, o certo é que todas acabam no mesmo endereço: o divã.

Os argentinos possuem uma peculiar obsessão pela ciência de Sigmund Freud. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país lidera o ranking de psicólogos per capita: são 121 para cada 100 mil habitantes, enquanto na Dinamarca são 85. Brasil, em oitavo lugar na lista, tem 32 psicólogos para cada 100 mil habitantes. “Minha geração inteira passou, em algum momento de sua vida, pelo consultório de um psicólogo”, conta a professora de ensino médio Isabel Juarez, de 55 anos.

Em Buenos Aires, os psicólogos fazem parte da geografia da cidade: a região onde eles se concentram dentro do bairro de Palermo é popularmente conhecido como “Villa Freud”. A profissão é muito respeitada no país. O psicanalista Gabriel Rolón, que apresenta programas no rádio e na televisão, tem um status comparável ao de um pop star. Desde que se aventurou a publicar livros, em 2007, já emplacou dois best-sellers: “Palavras Cruzadas” e “Histórias do Divã”.

Relacionado ao tratamento psicoterapêutico está um aspecto menos conhecido da sociedade argentina: seu fascínio por medicamentos psiquiátricos, os chamados psicofármacos.

“Trata-se de um fenômeno mais exclusivo da classe média das grandes cidades”, afirma a jornalista Valéria Shapira, autora do recém-publicado “A Argentina Ansiolítica”. “As pessoas se automedicam com essas pílulas para manter um estilo de vida no limite, sem parar para descansar.”

Segundo estudo da Universidade de Palermo, 30% da população de Buenos Aires já fez uso de algum psicofármaco – sobretudo ansiolíticos (tranquilizantes), antidepressivos e sedativos.

Arte/iG
Argentina lidera o ranking de psicólogos per capita no mundo

Culto à personalidade e autoestima

Algumas das obsessões argentinas ganharam fama internacional, como o culto às personalidades. O Partido Justicialista, o maior do país, é conhecido até hoje como peronista em alusão ao lendário ex-presidente, o general Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-1974). A Igreja Maradoniana, criada em homenagem ao maior jogador da história do país, garante possuir milhares de adeptos.

Outra característica local é a incapacidade de deixar os mortos descansarem em paz. Na Argentina, os corpos das grandes figuras políticas foram exumados, mutilados e até sequestrados. Perón já foi enterrado três vezes; o corpo de sua segunda mulher, Evita, foi roubado por militares e enterrado secretamente na Europa por vários anos.

Como consequência do orgulho em relação às personalidades nacionais, há a autoestima, característica frequentemente associada à alma platina – e nem sempre vista como positiva. “Embora não se deva generalizar, o fato é que muitos argentinos têm uma forte confiança em si mesmos”, afirma o estudante Christian Fernando, de 25 anos.

A esse sentimento se soma o contínuo desejo de nobreza dos portenhos, que podem ser considerados mais elegantes do que os brasileiros na maneira de se vestir e praticam esportes como polo, tênis, rúgbi e hóquei sobre grama – modalidades de elite pouco populares no resto da América Latina.

O drama do tango

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Casal dança tango em rua de Buenos Aires
Mas, apesar do orgulho nacional, há entre os argentinos um recorrente pessimismo a respeito do futuro, sentimento presente no estilo musical e de dança que mais sintetizam o país: o tango.

Segundo o filósofo Gustavo Varela, que coordena uma pós-graduação em história social do tango na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, o estilo se popularizou justamente em um momento histórico em que se procurava definir o que era ser argentino.

“O tango foi criado por filhos de imigrantes no século 19 e acabou ajudando a formar uma nova identidade nacional”, afirma Varela, que completa: “Nele, o progresso é geralmente visto com desconfiança, como uma alteração indesejada de uma essência.”

A atual apreensão quanto ao futuro, porém, é consequência da falta de progresso argentino com a decadência sofrida pelo país desde a segunda metade do século 20.

Para desgosto dos argentinos, Buenos Aires, antes chamada de “Paris do Sul”, atualmente é muito mais parecida com suas congêneres latino-americanas, como Cidade do México e São Paulo, do que com qualquer capital europeia.

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