Evo Morales recebe 60% dos votos favoráveis, segundo boca-de-urna

O presidente Evo Morales deve ser confirmado no cargo pelas urnas do referendo revogatório realizado neste domingo, na Bolívia, com 60% dos votos a favor e 40% contra, segundo pesquisa de boca-de-urna do canal de televisão PAT, com base em cálculos do grupo Captura Consulting. A margem de erro da pesquisa é de 5%.

AFP |

Uma segunda pesquisa de boca-de-urna, transmitida pela rede privada ATB, assinalou que o presidente teve a seu favor 56,7% dos votos, confirmando também que foi ratificado.

Evo Morales, o primeiro presidente indígena da Bolívia em 183 anos, está seguro de que colherá o que semeou em dois anos e meio de gestão: nacionalizou os recursos em hidrocarbonetos e empresas petrolíferas da nação e se propõe a distribuir as terras improdutivas que estão nas mãos de ricos latifundiários dos altiplanos e da Amazônia para camponeses pobres, seus fiéis eleitores.

Segundo Morales, em algumas pesquisas ele tem até 79% dos votos a seu favor, embora sondagens privadas locais indiquem percentual de 54% de apoio.

O chefe de Estado seria removido do cargo se os votos contra ele passarem de 53,74%, o mesmo percentual que obteve nas eleições de 2005.

Morales goza de amplo apoio, principalmente, nas regiões andinas de La Paz (Leste), Oruro (sul) e Potosí (sul), nas áreas rurais dos vales de Cochabamba (centro) e Chuquisaca (sudeste) e em menor medida na amazônica Pando (norte), receptora de uma forte migração aymara.

No entanto, as expectativas do presidente não são boas na região rica em gás de Tarija, na agroindustrial Santa Cruz e na pecuarista Beni, além das cidades de Sucre e Cochabamba, que resistem ao modelo de governo proposto por Morales.

Os movimentos civis nessas regiões promovem sem cessar uma formação de governos autônomos de cunho liberal.

Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija já aprovaram seus estatutos de autonomia em referendos populares entre maio e junho e vêem estas propostas como únicas vias para frear o partido governista.

Nestas regiões, está ganhando força a idéia de que, se Evo Morales perder internamente (o que não afetaria o resultado nacional), elas teriam argumentos suficientes para tornar estes estatutos legítimos.

Líder esquerdista dos plantadores de coca mais importante do país e deputado no Congresso, Morales percorreu um caminho árduo desde seu nascimento, em 26 de outubro de 1959, em Isayavi (cantão de Orinoca). É descendente de aymaras e quechuas, as duas maiores etnias da Bolívia.

Depois de uma infância extremamente pobre, que levou quatro de seus seis irmãos à morte antes de completarem dois anos, Morales, assim como sete de cada dez camponeses bolivianos, deixou sua região devido a uma feroz seca que no início dos anos 80 assolou o altiplano boliviano "em busca de pão", como afirma.

Desempenhou as mais diversas atividades, como membro de uma banda de música e jogador de futebol. Depois, foi secretário de Esportes de uma agremiação de produtores de coca, onde implantou uma incansável luta sindical, que o converteria mais tarde no líder de 30.000 famílias pobres vinculadas à produção da folha na região central de Chapare, antigo centro produtor de cocaína.

Implacável defensor dos direitos indígenas se transformou na pedra do sapato do ex-presidente Hugo Banzer, falecido recentemente, contra cujo governo organizou vários protestos em oposição a erradicação da coca ilegal em Chapare.

Fundou o Conselho Andino de Produtores de Coca, que inclui organizações de Peru, Equador, Colômbia e Bolívia, antes de receber o Prêmio Gadhafi dos Direitos Humanos em 2000 e ser candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 1995. "Não ganhei o Nobel por falta de uma campanha do governo de La Paz", chegou a comentar.

Tornou-se popular graças à capacidade de mobilização de seus protestos e, em outubro de 2003, liderou o movimento que resultou na queda do empresário Gonzalo Sánchez de Lozada.

Líder do Movimento Ao Socialismo, principal força política boliviana, Morales é defensor do livre cultivo de coca e opositor das políticas "imperialistas" dos Estados Unidos.

Nas eleições de 18 de dezembro de 2006, conquistou o cargo máximo do país com 54% dos votos.

Dia de votação

AP
Dia de votação foi de tranqüilidade
As mesas de votação começaram a encerrar os trabalhos às 16 horas, horário local, depois de oito horas de funcionamento tranquilo, informaram as cadeias de rádio.

A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) disse que não houve irregularidades graves, exceto um incidente em um povoado amazônico onde a votação foi demorada porque foi necessário repor todo o material eleitoral roubado durante a madrugada por desconhecidos.

A OEA 'valoriza a alta participação cidadã e deseja expressar o seu reconhecimento e admiração pelo interesse e vontade cívica dos bolivianos que comparecem com toda a tranquilidade e ânimo para votar', disse a organização em um comunicado.

O presidente Morales disse que sonhava com a unidade e o aprofundamento da democracia na Bolívia, depois de depositar seu voto em uma escola na região central de Chapare, onde nasceu para a vida sindical e política.

'Meu desejo, meu sonho é que haja uma grande unidade do povo boliviano (...), frente a intenções separatistas, saúdo este povo boliviano que luta por sua igualdade, por sua identidade e sobretudo pela unidade', disse em alusão a movimentos de autonomias regionais alentados pela oposição de direita.

O mandatário indígena acrescentou que a revolução socialista que pretendia na Bolívia não era um anseio isolado, porque 'na América Latina há uma grande rebelião contra políticas econômicas que não resolvem os problemas sociais, os problemas econômicos das grandes maiorias'.

'Hoje temos a certeza de que as pessoas vão sair para defender uma forma de vida, para lutar pela liberdade, mas com justiça', disse no outro extremo o prefeito de oposição de Santa Cruz e líder dos movimentos autonomistas, Rubén Costas, mostrando-se confiante em sua ratificação antes de votar.

Costas votou fazendo uma pausa na greve de fome que faz há seis dias, em um dos protestos anti-governamentais que aumentou a tensão política na última semana e colocou em risco o plebiscito.

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