Evo Morales busca a refundação da Bolívia em referendo constitucional

O presidente Evo Morales colocará em jogo no domingo seu projeto de refundar a Bolívia, em um referendo crucial para uma nova Constituição de teor estatal e indigenista, que enfrenta a resistência de vários setores políticos e regionais e que pode aumentar as profundas divergências que dividem os bolivianos.

AFP |

A votação começará às 08H00 no horário local (12H00 GMT) em 2.700 zonas eleitorais, que funcionarão por oito horas sem intervalos. A contagem dos votos será manual.

O novo padrão eleitoral permitiu que 3,89 milhões de bolivianos se inscrevessem para votar, dos quais quase metade reside em La Paz.

Os bolivianos decidirão se aprovam ou não uma nova Constituição para o país, que pela primeira vez reconhece as autonomias departamentais e define a extensão máxima das propriedades rurais, entre 5.000 e 10.000 hectares.

"O povo da Bolívia dirá se apóia, se aprova ou não o que até agora temos feito", declarou Morales neste sábado à imprensa estrangeira, conferindo ao referendo popular o status de pesquisa de opinião sobre sua gestão, que completou três anos na última quinta-feira.

Morales - que chegou à presidência como líder dos sindicatos cocaleros - disse ter certeza que os bolivianos o apoiarão, "porque estamos aqui para servir ao povo, e não para nos servirmos do povo".

O governo vê a nova Constituição como o início de uma refundação da Bolívia, pois considera que a primeira Carta Magna do país, ratificada em 1895, exclui a parcela indígena e camponesa da população.

Os indígenas bolivianos - que enxergam em Morales seu líder absoluto - representam 47% da população de 10 milhões de habitantes do país sul-americano, e são considerados a coluna vertebral deo governo. O presidente afirma que sua missão é conseguir a igualdade entre todos, embora a oposição o acuse de governar apenas para as 36 etnias e povos aborígenes e esquecer os mestiços.

"Os que se opões à nova Constituição são os entreguistas" e os partidários do liberal Gonzalo Sánchez de Lozada, que governou o país em duas ocasiões (1993-07 e 2002-03), disse Morales aos correspondentes estrangeiros.

Os ex-vice-presidentes de Sánchez de Lozada Carlos Mesa (que sucedeu Sánchez de Lozada em 2003) e o indígena aymara Víctor Hugo Cárdenas (1993-97) indicaram na semana passada que a Constituição de Morales não reflete um pacto social, essencial para qualquer Carta Magna, enfatiza em excesso os direitos dos índios.

Morales, no entanto, calcula que sua Constituição será aprovada no domingo com mais de 60% dos votos, e considera que isso será uma nova derrota para outros opositores, como os prefeitos rebeldes de Santa Cruz, Chuquisaca, Beni e Pando, que são contra o novo texto constitucional.

Para o presidente, sua vitória nas eleições presidenciais de dezembro de 2005, quando recebeu 53% dos votos, e sua ratificação em um referendo em agosto do ano passado, com 67% dos votos, são os elementos que indicam sua vitória no domingo.

Os prefeitos rebeldes Rubén Costas (Santa Cruz), Savina Cuéllar (Chuquisaca), Mario Cossío (Tarija) e Ernesto Suárez (Beni), prometeram, em troca, dar ao presidente "uma surra" nas urnas, afirmando acreditar que a nova Constituição será rejeitada em suas regiões e em Pando, cujo prefeito está preso.

"Esta é uma Constituição totalitarisra", declarou esta semana o poderoso governante de Santa Cruz, região mais rica da Bolívia e principal bastião da oposição a Morales.

Os bolivianos também serão consultados no referendo sobre a extensão máxima das terras agrícolas e pecuárias privadas (5.000 ou 10.000 hectares), cujo resultado será incorporado ao novo texto constitucional, caso seja aprovado.

jac/ap

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