Europa quer voltar a criar aliança com EUA para enfrentar desafios mundiais

Rafael Cañas. Bruxelas, 2 nov (EFE).- A Europa quer que o novo ocupante da Casa Branca permita lançar uma nova aliança estratégica com Washington a fim de poder oferecer uma resposta comum aos desafios mundiais.

EFE |

Em um mundo claramente multipolar no qual já não há uma superpotência hegemônica, os europeus acreditam que chegou o momento de formar uma frente unida com Washington para enfrentar questões como a crise financeira, a mudança climática ou a proliferação de armas de destruição em massa.

A União Européia (UE), que sofreu várias tentativas de divisão por parte dos Estados Unidos durante o mandato de George W. Bush - como na invasão do Iraque de 2003 ou em questões antiterroristas e a políticas de vistos no início deste ano -, espera também que os EUA a reconheçam como um parceiro estratégico de acordo com seu peso político e econômico.

"Todo mundo aguarda desesperadamente o final da era Bush", reconheceu à Agência Efe Antonio Missiroli, diretor do Centro de Política Européia, um dos principais centros de estudos políticos de Bruxelas, para quem os EUA se encontram em um momento de "fraqueza institucional" que tem sua origem na Casa Branca.

Por outro lado, destaca que a UE saiu "reforçada" por causa de sua rápida ação no conflito na Geórgia de agosto e a crise financeira mundial.

Enquanto isso, tanto John McCain como Barack Obama "estão conscientes de que o mundo unipolar acabou, e de que os EUA estão mais fracos do que em 2000, enquanto outros são mais fortes", em referência à Rússia ou China, uma situação na qual Washington "precisa de aliados", explicou.

Para um destacado funcionário da UE, "há uma necessidade absoluta" que europeus e americanos possam voltar a conseguir posições comuns nas grandes questões internacionais, como o Oriente Médio, Afeganistão e Irã.

A próxima cúpula UE-EUA de junho de 2009 será a primeira com o novo presidente americano: "Se houver um acordo entre EUA e europeus em todas estas questões, seria muito importante para o mundo".

Europa e EUA já estão cooperando antes das eleições da próxima terça-feira na prioridade número um: combater a crise financeira e reconstruir o sistema econômico internacional.

Tal diálogo deve se estender à reforma do sistema de Governo mundial, por meio de modificações no Fundo Monetário Internacional, na ONU e no Grupo dos Oito (G8, que reúne os sete países mais industrializados e a Rússia).

"Esta é uma crise mundial, de modo que temos de buscar uma resposta mundial", reconheceu o presidente rotativo do Conselho Europeu, Nicolas Sarkozy, durante sua recente reunião com Bush em Camp David - junto ao presidente da Comissão Européia (CE, órgão executivo da UE) - para estudar fórmulas de cooperação para enfrentar a crise.

A cooperação entre Washington e Bruxelas é mais necessária do que nunca porque "o Ocidente perdeu a capacidade de se impor ao resto do mundo", e os acordos prévios entre ambos já não são aceitos automaticamente pelos demais, lembra o funcionário da UE, que pediu para não ser identificado.

Embora na prática as propostas de política externa de Obama e McCain não se diferenciem muito, a grande maioria dos europeus prefere uma vitória do candidato democrata, segundo concordam várias pesquisas divulgadas na última semana.

No entanto, Missiroli adverte que "as expectativas européias em Obama são excessivas", embora reconheça que sua vitória eleitoral tornaria "mais fácil" aos dirigentes europeus defender perante suas populações uma aliança transatlântica mais firme.

Para o funcionário da UE, Obama "pode entender melhor a necessidade de deixar o tom arrogante" que marca às vezes os responsáveis americanos, "porque já não serve para nada" no atual cenário internacional.

Quanto à Otan, a aliança político-militar que reúne EUA, Canadá e a maior parte da Europa, as expectativas são também muito altas, e em breve se poderá ver se podem se materializar: na cúpula da organização prevista para abril próximo de forma simultânea em Estrasburgo (França) e Kehl (Alemanha), que pode ser o primeiro tête-à-tête do próximo presidente com os líderes europeus.

Essa cúpula será muito simbólica, já que a Otan iniciará o estudo de um novo conceito estratégico e se espera o anúncio formal da França, que retorna à estrutura militar da organização, por isso que pode ser uma plataforma ideal para que o novo presidente americano mostre aí seus planos em relação à Europa.

Desde sua criação em 1949, a Otan tem para os EUA um caráter estratégico, do qual a UE ainda carece, e alcançar esse status com Washington é um dos grandes objetivos da comunidade de países europeus.

"É um tabu que se espera seja quebrado", destaca Missiroli, que considera "muito simbólico" Washington conceder à UE o mesmo nível estratégico que a Aliança Atlântica. EFE rcf/ma

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